Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado. Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado: Os pastores, que habitam este monte, Respeitam o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste: Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra, que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Tomás Antônio Gonzaga. Lira I. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 573. Considerando-se as características do poema apresentado, é correto afirmar que ele pertence ao
- A)pós-modernismo, por utilizar técnicas como a sátira e o pastiche.
Errada, porque pós-modernismo não combina com a linguagem e a forma clássica do poema, nem com a idealização pastoril típica do Arcadismo.
- B)parnasianismo, por tratar de objetos poéticos de forma distanciada.
Errada, porque o poema não apresenta o distanciamento objetivo nem o culto formal aos objetos característicos do Parnasianismo.
- C)barroco, por explorar dualidades na alma do eu lírico.
Errada, porque não há conflito espiritual nem dualidades intensas da alma, marcas centrais do Barroco.
- D)arcadismo, por representar o poeta e sua amada em um ambiente pastoril e idílico.
Certa, porque o poema traz ambiente rural idealizado, eu lírico pastoril e linguagem própria do Arcadismo.
- E)modernismo, por quebrar as tradições do verso em língua portuguesa.
Errada, porque o texto segue forma tradicional e não rompe com a tradição versificatória como faria o Modernismo.
Gabarito: D
Este poema é de Tomás Antônio Gonzaga, autor ligado ao Arcadismo brasileiro, também chamado de Neoclassicismo. Nesse período, o poeta costuma fugir do excesso emocional e da confusão barroca, preferindo uma linguagem mais clara, equilibrada e inspirada na vida simples do campo. É por isso que aparecem elementos como pastor, ovelhas, cajado, fonte, monte e sanfoninha: tudo constrói um cenário pastoral e idealizado, típico da poesia árcade. No Arcadismo, o eu lírico muitas vezes assume uma máscara pastoril, como se fosse um simples pastor vivendo em harmonia com a natureza. Aqui, o personagem fala de sua vida no campo e de sua amada Marília com tom leve e sereno, sem drama exagerado. Isso é bem característico da chamada "fugere urbem" e da valorização da vida bucólica. O gabarito é a letra D porque o poema representa exatamente esse ambiente pastoril e idílico, com idealização da natureza e da relação amorosa. Além disso, Gonzaga é um nome clássico do Arcadismo no Brasil, especialmente na obra "Marília de Dirceu". Se você viu campo, simplicidade e amor em clima de serenidade, já pode desconfiar de Arcadismo. Como apoio doutrinário, essa classificação é a tradicional nos manuais de literatura brasileira: Arcadismo associa-se ao racionalismo, à contenção e à vida campestre idealizada, em contraste com o rebuscamento barroco e com a liberdade formal modernista.