Milton Santos (2000) inicia a discussão da “globalização como fábula” a partir de um argumento de Maria da Conceição Tavares (1999), afirmando que “este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdades um certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação”. (...) Para Santos, “a máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes na atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema”. São exemplos da concepção miltoniana da globalização como fábula, as seguintes concepções, EXCETO:
- A)Imagem difundida da aldeia global.
Correta como exemplo da fábula, porque a ideia de "aldeia global" passa a impressão de integração harmoniosa e total do planeta.
- B)deia de encurtamento das distâncias.
Correta como exemplo da fábula, pois o suposto encurtamento das distâncias é um discurso típico que suaviza os efeitos desiguais da globalização.
- C)Perspectiva que outro mundo é possível.
Errada porque "outro mundo é possível" expressa crítica e alternativa ao modelo dominante, não a narrativa ideológica da globalização-fábula.
- D)Perspectiva aparente da morte do Estado.
Correta como exemplo da fábula, já que a aparente morte do Estado reforça a visão de que o mercado global manda em tudo.
Gabarito: C
Milton Santos critica a globalização vendida como se fosse um pacote perfeito, cheio de promessas bonitas e pouco compromisso com a realidade. Quando ele fala em "globalização como fábula", está apontando justamente as narrativas ideológicas que fazem o processo parecer natural, inevitável e até benéfico para todos, quando na prática ele aprofunda desigualdades e concentra poder. Nesse contexto, aparecem algumas ideias que viram quase slogans: a noção de "aldeia global", a sensação de que as distâncias encurtaram e a impressão de que o Estado perdeu força diante do mercado e das redes globais. São imagens que ajudam a sustentar a narrativa encantadora da globalização, mesmo quando a vida concreta de muita gente mostra exclusão, desemprego e dependência. A alternativa C foge dessa lógica. A perspectiva de que "outro mundo é possível" não pertence à fábula da globalização dominante; ela é uma crítica a esse modelo e uma proposta de transformação social, muito ligada a movimentos sociais e ao pensamento crítico. Em vez de reforçar o discurso ideológico do sistema, ela o questiona. Em outras palavras: a questão pede o exemplo que não combina com a globalização como fantasia ideológica. Milton Santos, em obras como Por uma outra globalização, mostra que a globalização não é neutra nem homogênea, mas um processo seletivo, desigual e comandado por poucos.