A alternativa da autoconstrução é considerada viável pelos poderes públicos porque é mais barata, já que não se “contam” os custos de mão de obra, assumidos, no caso, pelo trabalhador; além disso, essa alternativa é colocada, ideologicamente, como valorização do saber popular. Dá-se ênfase à “cultura popular” num discurso demagógico: “o povo sabe construir sua casa”. Se os trabalhadores têm resolvido seu problema de moradia pela autoconstrução, por que não financiar material e dar assistência técnica para que as casas fiquem com melhor aparência, o que favoreceria, também, a contratação de um grande número de técnicos para acompanhar o programa? Arlete Moysés Rodrigues. Moradias nas cidades brasileiras. São Paulo: Contexto, 2003, p. 33. O texto anterior refere-se à territorialidade do espaço urbano
- A)da cidade formal, do aluguel e da especulação imobiliária.
Errada, porque o texto não trata da cidade formal nem de aluguel ou especulação imobiliária, mas de moradia autoconstruída em espaço precário.
- B)do trabalhador do setor secundário na construção civil.
Errada, porque a autoconstrução não se refere ao trabalhador da construção civil como setor produtivo, e sim à família que ergue sua própria casa.
- C)da moradia formal na produção capitalista do espaço.
Errada, porque o trecho não descreve moradia formal inserida na lógica capitalista regulada, mas uma forma precária e irregular de ocupação urbana.
- D)da valorização do saber popular na produção do espaço.
Errada, porque o texto critica o uso ideológico do discurso sobre saber popular, mas a territorialidade retratada é a da precariedade habitacional, não a valorização cultural em si.
- E)do aglomerado subnormal de padrão urbanístico irregular.
Certa, porque a autoconstrução em área periférica e irregular é típica dos aglomerados subnormais, com padrão urbanístico irregular e baixa infraestrutura.
Gabarito: E
O texto descreve a autoconstrução da moradia, isto é, quando a família constrói ou amplia a casa por conta própria, muitas vezes aos poucos, com pouca ou nenhuma orientação técnica e fora do circuito formal do mercado imobiliário. Isso aparece com muita frequência nas periferias urbanas brasileiras, especialmente onde o poder público foi omisso por muito tempo. Na prática, esse processo costuma acontecer em áreas ocupadas de forma irregular, com lotes sem infraestrutura adequada, ruas estreitas, saneamento precário e ocupação sem regularização plena. Por isso, a questão fala em territorialidade do espaço urbano marcada por desigualdade e precariedade habitacional, não por uma moradia formal bonitinha no folder da prefeitura. O gabarito é a letra E porque a descrição combina com os aglomerados subnormais, isto é, assentamentos irregulares como favelas, invasões e similares, caracterizados por padrão urbanístico irregular. Essa é a expressão usada pelo IBGE para identificar esses espaços, que fogem do urbanismo formal e concentram vulnerabilidade social. A pegadinha está em tentar vender a autoconstrução como algo valorizado e até eficiente, mas o texto denuncia justamente o uso ideológico desse discurso para mascarar a precariedade habitacional e a transferência do custo da moradia para o trabalhador.