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Geografia · CESPE/CEBRASPE · 2021

Questão comentada de Geografia

Na metade do século passado, o contato dos brancos com os Xetá, grupo indígena de língua tupi-guarani, fragilizado demograficamente e violentado de diferentes maneiras, consolidou-se na Serra dos Dourados, no noroeste do estado do Paraná. Por meio de envenenamentos, remoção forçada, raptos de crianças e mortes, os brancos, a partir da frente cafeeira que adentrou o território do grupo, fizeram os Xetá sucumbirem nos primeiros anos de contato efetivo. Consolidava-se, assim, o pretendido “vazio demográfico” que permitiria a colonização do noroeste paranaense. Não tardou para que os Xetá acabassem declarados oficialmente extintos. Edilene Coffaci de Lima. De documentos etnográficos a documentos históricos: a segunda vida dos registros sobre os Xetá (Paraná, Brasil). In: Sociologia e Antropologia, Rio de Janeiro, v. 8, n.º 2, ago./2018 (com adaptações). Nas décadas de 20 e de 30 do século XX, a expansão cafeeira atingiu a região denominada de Norte Novo (longo território do norte do Paraná, localizado à margem esquerda do rio Tibagi). Nessa região, a colonização das terras e a divisão dos lotes contou com ampla participação da Companhia de Terras Norte do Paraná. A princípio, essa empresa, de origem britânica, ocuparia a região e estimularia a produção de algodão, para que essa matéria-prima se tornasse predominante na Inglaterra. Porém, isso não ocorreu, já que as primeiras plantações de algodão na região não obtiveram resultados satisfatórios. A empresa mudou o seu foco e começou a revender as suas terras em pequenas parcelas territoriais. Além dessa companhia, uma dezena de outras companhias de terras se instalou ao longo do norte do Paraná, atuando na colonização e fixação de famílias em pequenas propriedades. Essa política atraiu para a região milhares de imigrantes, que vinham com o sonho de conquistar o seu pedaço de terra e produzir café e outros produtos alimentícios. O imigrante passou a ser considerado o fator de estabilidade para o desenvolvimento das cidades e o aumento da produção. Nessa época, o Paraná tornou-se a principal fronteira agrária e agrícola do país, atraindo tanto imigrantes europeus quanto migrantes nacionais. Angelo Priori et al. História do Paraná: séculos XIX e XX. Maringá: Eduem, 2012 (com adaptações). Considerando os textos precedentes, assinale a opção correta, acerca do avanço agrícola no Paraná.

Gabarito: E

A questão mistura história da ocupação agrícola com a presença indígena no território. O ponto central é perceber que a expansão cafeeira no norte do Paraná não foi um processo neutro nem “vazio”: ela avançou sobre áreas já ocupadas por povos indígenas, como os Xetá, e isso veio acompanhado de violência, expulsões e apagamento social. No primeiro texto, o autor descreve exatamente essa lógica cruel: envenenamentos, remoções forçadas, rapto de crianças e mortes. Isso mostra que a colonização agrícola ignorou a existência e os direitos dos povos originários, produzindo o chamado “vazio demográfico” pela força, não por ausência real de população. Em termos de história agrária, isso é um padrão conhecido da expansão da fronteira agrícola no Brasil. O segundo texto reforça o contexto econômico: companhias de terras lotearam a região, atraindo migrantes e impulsionando a cafeicultura. Ou seja, havia um projeto de ocupação, venda de lotes e formação de pequenas propriedades, mas esse avanço ocorreu sobre territórios indígenas e com forte exclusão dessas populações. Por isso, a alternativa E está correta: a lavoura cafeeira avançou no norte do Paraná em meados do século XX ignorando sociedades e culturas indígenas, sem proteção efetiva do poder público. A Constituição Federal de 1988, no art. 231, reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, mas o texto cobra justamente a realidade histórica anterior, marcada pela violência e pela omissão estatal.

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