Leia o relato do caso a seguir. O Sr. Anésio, de 74 anos, era muito conhecido pela equipe de Saúde da Família. Sempre comparecia à unidade com suas queixas, provocando uma sensação de impotência na equipe: estava medicado, a pressão arterial estava controlada, mas o quadro depressivo se mantinha inalterado. A equipe, então, resolveu “pôr o caso na roda” e chamou uma psicóloga para apoiar a discussão. Um agente comunitário de saúde lembrou que o Sr. Anésio se sentia muito só. Alguém sugeriu uma visita à casa dele e, na visita domiciliar, percebeu-se que o Sr. Anésio havia sido marceneiro por muitos anos, mas agora não trabalhava mais. Chamaram também a psicóloga da Saúde Mental e compartilharam o que sentiram. Na conversa, uma possibilidade apareceu: “Estamos num bairro onde há tantos adolescentes vagando por aí sem ocupação. Será que o Sr. Anésio toparia ensinar o que sabe a alguns meninos? Será que alguns meninos topariam aprender marcenaria”? A partir do relato e com base nos dispositivos e modos de fazer indicados pela Política Nacional de Humanização, analise as afirmativas a seguir. I. A escuta qualificada e as ações motivadoras em pessoas idosas exigem uma equipe multidisciplinar a partir do nível secundário de atenção à saúde. II. A atenção básica tem mais condições de conhecer as famílias ao longo do tempo, sua situação afetiva e a repercussão do sofrimento/adoecimento. III. O modo de gestão é centrado no trabalho em equipe e na cogestão, em colegiados que analisam, decidem e avaliam em conjunto. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
Esta alternativa sustenta que apenas a afirmativa I estaria correta. O problema é que a I atribui à escuta qualificada e às ações motivadoras uma exigência de equipe multidisciplinar apenas no nível secundário de atenção, quando esses dispositivos da humanização podem e devem ocorrer também na atenção básica, em trabalho interdisciplinar e com vínculo longitudinal. Como II e III descrevem elementos compatíveis com a APS e com a cogestão da PNH, limitar a resposta à I não se sustenta.
- B)I e II, apenas
Aqui se afirma que as afirmativas I e II estariam corretas, e que a III não deveria entrar. Ocorre que a I erra ao restringir a humanização e a escuta qualificada ao nível secundário, enquanto a III traduz exatamente a lógica da Política Nacional de Humanização, com trabalho em equipe, cogestão e decisões compartilhadas em colegiados. Assim, a composição proposta pela alternativa não corresponde ao conteúdo das afirmativas.
- C)I e III, apenas
Esta opção afirma que I e III estariam corretas, excluindo a II. O equívoco está em ignorar que a atenção básica é justamente o nível que melhor acompanha a família ao longo do tempo, conhece seu contexto afetivo e capta a repercussão do sofrimento e do adoecimento, o que torna a II verdadeira. Como a I é falsa e a II é verdadeira, a combinação sugerida não fecha.
- D)II e III, apenas
A alternativa reúne II e III, que são as afirmativas corretas. A II está certa porque a atenção básica, pela territorialização, vínculo e longitudinalidade, consegue conhecer a família e seus determinantes psicossociais; a III também está certa porque a PNH valoriza cogestão, colegiados e trabalho em equipe como modo de gestão. A I, por sua vez, erra ao limitar essas práticas ao nível secundário e a uma exigência de equipe multidisciplinar, o que não corresponde ao desenho da humanização no SUS.
- E)I, II e III.
Esta opção diz que as três afirmativas estariam corretas. Isso não procede porque a I contém uma restrição indevida ao afirmar que a escuta qualificada e as ações motivadoras em idosos exigem equipe multidisciplinar somente no nível secundário, quando tais práticas são transversais à rede e se fortalecem na atenção básica. Como II e III estão corretas, mas I não, não é possível admitir o conjunto completo.
Gabarito: D
A Política Nacional de Humanização (PNH) aposta em cuidado com escuta, vínculo, corresponsabilização e trabalho em equipe. Na prática, isso aparece em coisas bem concretas: acolhimento, escuta qualificada, apoio matricial, clínica ampliada e cogestão. A ideia é sair do atendimento “apertou botão, saiu receita” e olhar a pessoa inteira, com sua história, família, território e desejos. No caso do Sr. Anésio, a equipe fez exatamente o que a PNH estimula: discutiu o caso em equipe, buscou apoio de outros profissionais, foi ao domicílio e tentou construir uma solução compartilhada com sentido para a vida dele. Isso é cuidado centrado na pessoa e articulado com o território, não só no sintoma. A afirmativa II está correta porque a Atenção Básica é a porta de entrada preferencial do SUS e tem mais condições de acompanhar a família ao longo do tempo. Essa continuidade permite conhecer rotina, vínculos, sofrimento psíquico e repercussões do adoecimento, algo muito valorizado pela PNH e pela lógica da Estratégia Saúde da Família. A afirmativa III também está correta porque a PNH defende gestão participativa e cogestão, com colegiados e espaços coletivos de análise, decisão e avaliação. Já a I está errada: escuta qualificada e ações motivadoras não são exclusivas do nível secundário nem exigem apenas equipe multidisciplinar fora da Atenção Básica. A humanização é diretriz para toda a rede do SUS, especialmente na Atenção Primária.