A respeito do grafismo indígena, leia o texto a seguir. Em certos grupos indígenas, a arte pode atingir níveis de um virtuosismo extremado, como ocorre, por exemplo, na antiga pintura facial dos Kadiweu. Apesar disso, permanece estática por longos períodos, pois se relaciona com uma trama de significados sociais e religiosos de cuja preservação participa, criando marcos tangíveis para seu reconhecimento. Mesmo assim, ela não é imune às transformações sociais e ecológicas. Hoje os Kadiweu não se pintam mais, possivelmente porque esta manifestação artística, toda em filigranas, perdeu sua função social, essencialmente etnocêntrica e hierarquizadora. Adaptado de VIDAL, Lux (org.). Grafismo indígena: estudos de antropologia estética. São Paulo: FAPESP, EdUSP, 2000, p. 14. De acordo com o relato, a pintura corporal dos Kadiweu possui uma função
- A)identitária, pois homogeneíza os membros daquela comunidade já que todos usam o mesmo grafismo.
Errada, porque o texto mostra que o grafismo não homogeneíza apenas por igualdade visual, mas organiza diferenças e posições dentro da comunidade.
- B)social, pois determinados padrões podem indicar o status ou o papel social do indivíduo dentro da comunidade.
Certa, porque os padrões podem marcar status, função ou papel social do indivíduo, exatamente como a pintura facial descrita no texto.
- C)estética, pois o grafismo facial é essencialmente decorativo, servindo para realçar as características naturais do rosto.
Errada, porque o texto nega a ideia de função meramente decorativa ao associar a pintura a significados sociais e religiosos.
- D)espiritual, pois externaliza o sinal visível da fé de cada indivíduo Kadiweu, sendo um marco público de sua adesão.
Errada, porque o texto não trata de fé individual ou adesão pública, e sim de uma prática coletiva ligada à organização social do grupo.
- E)comunicativa, pois cada traço e forma reproduzem literalmente um objeto do mundo natural.
Errada, porque o grafismo não reproduz literalmente objetos da natureza; ele trabalha símbolos, códigos e sentidos sociais.
Gabarito: B
O grafismo indígena não é só enfeite: ele carrega identidade, organização social, memória e visão de mundo. Em muitos povos, pintar o corpo ou usar certos desenhos não serve apenas para “ficar bonito”, mas para marcar pertencimento, papéis, momentos rituais e até posições dentro do grupo. Por isso, o mesmo traço pode dizer muito mais do que parece à primeira vista. No texto, o autor destaca que a pintura facial Kadiweu se relacionava com uma trama de significados sociais e religiosos e tinha função etnocêntrica e hierarquizadora. Em outras palavras, ela ajudava a ordenar a vida social, distinguindo pessoas e posições dentro da comunidade. Isso afasta a ideia de mero adorno e mostra que a pintura tinha uma função social bem definida. É justamente por isso que o gabarito é a letra B. A pintura corporal podia indicar status, papel ou posição social do indivíduo no grupo, funcionando como marca de organização interna. Quando a prática perde essa função social, como o texto sugere que ocorreu entre os Kadiweu, ela tende a desaparecer ou se transformar. Em temas como esse, a FGV gosta de cobrar a diferença entre arte indígena como expressão estética e arte indígena como linguagem social. Então, se aparecer uma alternativa falando em “decoração pura”, “simples beleza” ou “mensagem genérica”, desconfie: o grafismo indígena costuma ser muito mais social e simbólico do que aparenta.