Em 1795, Friedrich Schiller apresentou ideais educativos diretamente relacionados ao modo como concebia o valor da arte para formação das pessoas, como no trecho a seguir. Pela disposição estética do espírito, a espontaneidade da razão é iniciada já no campo da sensibilidade, o poder da sensação é quebrado dentro de seus próprios domínios, o homem físico é enobrecido de tal maneira que o espiritual, de ora em diante, só precisa desenvolver-se dele segundo as leis da liberdade. O passo do estado estético para o lógico e moral (da beleza para a liberdade e o dever) é, pois, infinitamente mais fácil que o do estado físico para o estético (da vida meramente cega para a forma). Adaptado de SCHILLER, F. A educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 1990, p. 118. Schiller, em seu projeto educacional para a arte, posiciona-se
- A)a favor do racionalismo iluminista, pois sustenta que a razão está acima de qualquer afeto.
Errada, porque Schiller não coloca a razão acima de qualquer afeto; ele busca justamente conciliar razão e sensibilidade.
- B)pró classicismo francês, o qual sistematiza o fazer artístico com suas regras formais.
Errada, porque o texto não trata de regras formais do classicismo francês, mas da função formativa da experiência estética.
- C)a desfavor do irracionalismo, oriundo do cultivo excessivo de sentimentos e emoções.
Errada, porque Schiller não combate sentimentos e emoções em si; ele quer educá-los e integrá-los à liberdade.
- D)contra o utilitarismo, uma vez que o belo suscita uma dimensão lúdica, essencial para a fruição estética.
Certa, porque Schiller rejeita a redução da arte a um fim prático e destaca o belo como experiência lúdica e formadora.
- E)em prol do homem espiritual, movido pelo impulso sensível, repudiando a matéria e a lógica.
Errada, porque o autor não repudia a matéria nem a lógica; ele afirma uma passagem da sensibilidade para a liberdade e o dever.
Gabarito: D
Schiller é um nome-chave quando a questão fala de educação pela arte. Para ele, a experiência estética não é enfeite nem passatempo vazio: ela ajuda a formar o ser humano de modo integral, porque aproxima sensibilidade e razão. Em outras palavras, a arte educa sem dar sermão, como se “organizasse” o sentimento para que a liberdade moral pudesse florescer depois. No trecho citado, Schiller diz que, pela disposição estética, o homem deixa de ser dominado apenas pelos impulsos cegos da sensação e passa a um estado em que a liberdade e o dever podem se desenvolver com mais facilidade. Isso mostra que a beleza tem função formativa e mediadora: ela não elimina o sentimento, mas o transforma em experiência humana mais rica. É por isso que o gabarito é a letra D. Schiller não está defendendo uma arte utilitária, no sentido de servir a uma finalidade prática imediata. Ao contrário: o belo abre espaço para uma dimensão lúdica, contemplativa e de fruição estética, que prepara o sujeito para a liberdade. A arte, aqui, vale por si e pela formação humana que provoca. Em termos doutrinários, isso combina com a tradição da educação estética: a beleza como caminho de humanização, e não como ferramenta de produtividade. A banca costuma explorar justamente essa tensão entre o uso pragmático da arte e sua função formativa mais ampla.