O longa-metragem Limite (1931) de Mário Peixoto destaca-se por suas experimentações estéticas e por optar em ser silencioso, em um contexto de ascensão do cinema falado. A primeira sequência apresenta um barco à deriva, no qual os personagens estão entregues ao destino. Em seguida, um bando de urubus dá lugar à imagem de uma mulher cabisbaixa, tendo à sua frente mãos masculinas algemadas. No roteiro, o cineasta detalha a cena: [1]. close-up – terra [2]. fusão – rosto de mulher – braços de homem algemados na frente – expressão de olhar [3]. fusão – sai rosto fica algema [4]. fusão – sai algema voltam só os olhos insiste nos olhos [5]. fusão – sai olhos aos poucos e nota-se coisa brilhante movendo-se – mais nítido – movimento da água do mar – vagas pequenas – movimento – movimento – olhos somem por completo mar é nítido – tempo Adaptado de https://enciclopedia.itaucultural.org.br. Com base no fotograma e no trecho do roteiro, assinale a afirmativa que caracteriza corretamente o diálogo entre as vanguardas artísticas e o cinema no início do século XX.
- A)O cinema de vanguarda caracteriza-se pelo realismo, enfatizado pelo uso da luz natural que ilumina os punhos algemados.
Errada, porque o filme de vanguarda não prioriza realismo naturalista, mas sim experimentação estética e simbolismo.
- B)A experimentação estética aproxima o cinema do teatro, com o roteiro detalhando o diálogo entre o espectador e as imagens.
Errada, porque a relação central não é com o teatro nem com um diálogo espectador-imagem, e sim com a construção poética e experimental do sentido.
- C)A imagem da mulher e dos punhos algemados é alegórica e objetiva despertar a sensação de aprisionamento e levar o espectador a refletir para apreender a narrativa imagética.
Certa, porque a composição é alegórica e simbólica, sugerindo aprisionamento e convidando o espectador a interpretar a narrativa imagética.
- D)O plano-sequência que mostra o rosto da mulher junto com mãos algemadas ilustra as regras da montagem invisível, para dar a sensação de fluidez natural da ação para o espectador.
Errada, porque o trecho não exemplifica montagem invisível nem continuidade naturalista, mas uma sequência de fusões e associações visuais experimentais.
- E)As vanguardas se opõem a tudo que é psicológico ou poético, por isso os roteiros são compostos por palavras chaves e comandos de câmera pautados no princípio de causalidade.
Errada, porque as vanguardas não rejeitam o poético e o psicológico; ao contrário, costumam explorá-los, rompendo com a causalidade tradicional.
Gabarito: C
No início do século XX, as vanguardas artísticas mudam a ideia de arte como simples cópia da realidade. No cinema, isso aparece em obras que valorizam a montagem, a justaposição de imagens, o simbolismo e a sensação, em vez de uma narrativa linear e “certinha”. Em Limite, Mário Peixoto faz exatamente isso: ele transforma imagens em ideias e emoções, como aprisionamento, destino e passagem do tempo. O trecho do roteiro mostra bem essa lógica experimental. A sequência vai do rosto da mulher aos punhos algemados, depois aos olhos e ao mar, criando associações visuais e poéticas. Não é uma cena feita para “explicar” tudo de forma objetiva, mas para provocar interpretação. Isso é bem típico do diálogo entre cinema e vanguardas: a imagem vale pelo impacto estético e simbólico, não só pela função narrativa. Por isso, o gabarito é a letra C. A mulher cabisbaixa e as mãos algemadas funcionam como imagem alegórica do aprisionamento, da impotência e da condição humana diante do limite e do destino. O espectador não recebe uma história fechada, mas pistas imagéticas para refletir e montar o sentido mentalmente. É cinema que pensa com imagens, e não só com enredo. As demais alternativas erram ao tentar aproximar a obra do realismo, do teatro, da montagem invisível ou de uma lógica causal tradicional. Em obras de vanguarda, o charme está justamente em quebrar essas regras. É a arte dizendo: “não vou te entregar tudo de bandeja, pense comigo”.