Recentemente, tem-se ampliado a configuração inclusiva da concepção de arte afro-brasileira, evitando-se a ideia de raça, pautando-se menos em marcações étnicas e mais por valores culturais africanos misturados aos demais nas complexas dinâmicas sociais brasileiras. Ou seja, em conjunções de arte, Brasil e África para além de raça e etnia. A arte afro-brasileira, pode remeter à cor da pele de africanos e afrodescedentes, e, portanto, a fenótipos, mas para ressaltar como, com sua heterogeneidade inclusiva, essa vertente permite ver um rico negrume multicor. CONDURU, R. Negrume multicor: arte, África e Brasil para além de raça e etnia. Acervo, 2011, v. 22, n. 2, p. 43. Adaptado. Com base no trecho, assinale a afirmativa que define corretamente a vertente artística afro-brasileira na perspectiva do autor citado.
- A)Decorre do processo histórico que propiciou o encontro da cultura brasileira com a africana, a partir da diáspora do povo africano na condição de escravizado.
Correta, porque relaciona a arte afro-brasileira ao encontro histórico entre culturas africanas e brasileiras, marcado pela diáspora e pela escravidão.
- B)É produzida unicamente por afrodescendentes, com o objetivo de expressar a própria identidade singular e reivindicar maior visibilidade social.
Errada, porque a arte afro-brasileira não é produzida unicamente por afrodescendentes nem serve apenas para reivindicação identitária.
- C)Tematiza exclusivamente a negritude, tendo como objeto preferencial as questões raciais e aspectos ritualísticos do universo religioso africano.
Errada, porque reduz a vertente à negritude e ao universo religioso, quando o trecho destaca justamente sua amplitude e heterogeneidade.
- D)Resgata a tradição milenar de esculpir em marfim e de entalhar máscaras, além de privilegia retratar temas que remetem ao passado e aos mitos africanos.
Errada, porque limita a arte afro-brasileira a técnicas e temas do passado africano, ignorando as misturas e reinvenções no contexto brasileiro.
Gabarito: A
A arte afro-brasileira não deve ser vista como um bloco fechado, como se existisse uma “arte de raça” pronta e separada do resto do Brasil. O trecho de Conduru aponta justamente o contrário: essa vertente nasce do encontro histórico entre África e Brasil, dentro das dinâmicas da diáspora africana e da escravidão, e vai se formando por misturas, trocas e permanências culturais. Isso significa que a marca afro-brasileira pode aparecer em temas, técnicas, símbolos, materiais, memórias e referências culturais de matriz africana, sem ficar presa apenas à cor da pele ou a uma identidade rígida. A ideia do autor é ampliar o olhar: ver a arte afro-brasileira como um campo plural, híbrido e inclusivo, um “negrume multicor”, como ele diz com boa dose de provocação poética. Por isso, a alternativa correta é a letra A. Ela acerta ao situar essa produção no processo histórico de contato entre cultura brasileira e africana, especialmente a partir da diáspora do povo africano escravizado. As demais alternativas estreitam demais o conceito e acabam transformando uma vertente ampla em algo exclusivo, rígido ou estereotipado. Em termos doutrinários, a leitura contemporânea da arte afro-brasileira valoriza a mistura cultural e a complexidade das identidades, evitando essencialismos. É a lógica do encontro e da reconstrução cultural, não a de uma categoria presa a um único traço biológico ou religioso.