Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um dos primeiros a registrar e estudar as manifestações da cultura popular, vinculando-a ao folclore. Todos os países do mundo, raças, grupos humanos, famílias, classes profissionais, possuem um patrimônio de tradições que se transmite oralmente e é defendido e conservado pelo costume. Esse patrimônio é milenar e contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários desde que se integrem nos hábitos grupais, domésticos ou nacionais. Esse patrimônio é o folclore. “Folk”, povo, nação, família, parentalha. “Lore”, instrução, conhecimento. “Contemporaneidade”, atualização imediatista do conhecimento. CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1967, p.9. (Adaptado) Com base no trecho, assinale a opção que apresenta o entendimento de cultura popular de Câmara Cascudo.
- A)Os hábitos preservados pelos segmentos sociais não afetados pelo cosmopolitismo das elites urbanas.
Errada, porque reduz a cultura popular a hábitos de grupos supostamente imunes ao cosmopolitismo, e Cascudo fala de tradição viva, não de isolamento social.
- B)As expressões, tradições e memórias eruditas que forjam uma identidade nacional.
Errada, porque mistura cultura popular com produção erudita, enquanto o texto trata de saberes transmitidos oralmente e ligados ao folclore.
- C)As produções da indústria cultural de rápida obsolescência, a favor do imediatismo.
Errada, porque descreve a lógica da indústria cultural e da obsolescência rápida, o oposto da permanência criativa das tradições populares.
- D)As festas dos segmentos menos favorecidos, apartados do poder político e econômico.
Errada, porque limita a cultura popular às festas de grupos economicamente desfavorecidos, mas o conceito de Cascudo é mais amplo e não depende dessa condição.
- E)As tradições populares, no tempo e no espaço, que são criativamente acomodadas ao tempo presente.
Certa, porque expressa as tradições populares como patrimônio vivo, transmitido no tempo e no espaço e atualizado no presente.
Gabarito: E
Cultura popular, no recorte de Câmara Cascudo, não é uma peça de museu parada no tempo. Ela vive na oralidade, no costume e na transmissão entre gerações, mudando sem perder a raiz. É justamente essa ideia que aparece no trecho: o folclore é patrimônio de tradições que se conserva, mas também se renova no cotidiano. Perceba a chave do texto: o autor diz que esse patrimônio é “milenar e contemporâneo”. Ou seja, não se trata de algo congelado no passado, e sim de práticas que continuam existindo porque se ajustam à vida presente. Em outras palavras, a tradição não morre quando entra no presente; ela se acomoda, se recria e segue circulando. Por isso o gabarito é a alternativa E. Ela traduz bem a noção cascudiana de cultura popular como conjunto de tradições populares situadas no tempo e no espaço, mas atualizadas criativamente no presente. Isso combina com a visão clássica de Cascudo sobre folclore como saber coletivo transmitido oralmente e preservado pelo uso social. As demais alternativas escorregam para ideias de elite, indústria cultural ou exclusão social, que não correspondem ao conceito do autor. Aqui, o foco não está em separar “povo” e “elite”, mas em reconhecer a vitalidade das práticas populares.