Em 1913 o músico futurista Luigi Russolo publicou o manifesto A Arte dos Ruídos. Em sintonia com a era industrial das máquinas e da velocidade, Russolo criou novos instrumentos musicais para permitir que os compositores utilizassem os sons mais complexos da “era mecânica”: Todos sabemos que qualquer som musical transporta em si um desenvolvimento de sensações com as quais estamos familiarizados e das quais estamos exaustos, pois predispõem o ouvinte ao aborrecimento. Nós Futuristas, amamos profundamente e apreciamos as harmonias dos grandes mestres. Por muitos anos, Beethoven e Wagner chocaram os nossos nervos e corações. Agora encontramos mais divertimento na combinação de ruídos de carris, motores, carruagens e multidões. RUSSOLO, Luigi. L’arte dei rumori, in: https://archive.org/details/luigi-russolo-lartedei-rumori-1916. (Adaptado) Com base nas palavras de Russolo, é correto afirmar que para o autor, o ruído é um
- A)recurso musical.
Correta, porque Russolo defende o ruído como elemento artístico e matéria de composição musical.
- B)barulho indesejável e involuntário.
Errada, pois o texto não trata o ruído como algo indesejável, mas como algo valorizado esteticamente.
- C)rumor indistinto, gravado do mundo natural.
Errada, porque não se refere a um rumor natural indistinto, e sim aos sons da vida industrial moderna.
- D)som que impede a mensagem de chegar ao seu receptor.
Errada, já que o ruído não é apresentado como obstáculo à comunicação, mas como objeto de apreciação musical.
- E)som eletrônico puro, produzido por frequência constante.
Errada, porque o texto não fala em som eletrônico puro nem em frequência constante, e sim em ruídos mecânicos e urbanos.
Gabarito: A
Luigi Russolo foi um dos nomes do futurismo, movimento que adorava a ideia de máquina, velocidade, cidade e ruptura com a arte tradicional. No manifesto A Arte dos Ruídos, ele propõe que o som da vida moderna, inclusive o ruído, pode entrar na criação artística, não como algo a ser eliminado, mas como matéria-prima da música. Repare na lógica do texto: Russolo diz que os sons musicais tradicionais já estavam ficando previsíveis e até cansativos, enquanto os ruídos de carris, motores, carruagens e multidões traziam novidade e mais interesse estético. Ou seja, para ele, o ruído não era apenas um acidente desagradável, mas um elemento capaz de compor a experiência musical. Por isso, o gabarito é a letra A. O autor trata o ruído como recurso musical, isto é, como algo que pode ser organizado e usado na composição. Essa visão combina com a vanguarda futurista, que queria expandir a arte para além do repertório clássico e incorporar a sonoridade da era industrial. Se você pensar bem, Russolo está fazendo uma defesa radical: o que antes parecia “barulho” passa a ser linguagem artística. Não é falta de música, é outra ideia de música.