Na obra Bichos (1960), a artista Lygia Clark buscou borrar os limites físicos entre o público e a obra, criando uma sequência de esculturas de placas de metal, com dobradiças como articulações, no sentido de provocar o público a mudar o posicionamento das placas, criando seu próprio “bicho”. “Na relação que se estabelece entre você e o ‘bicho’, não há passividade, nem sua, nem dele. Acontece uma espécie de corpo a corpo entre duas entidades vivas”, diz a artista. Internet:<portal.lygiaclarck.org.br> (com adaptações). Com relação à referida obra de Lygia Clark e sua produção artística em geral, assinale a opção correta.
- A)Ao abrir sua obra à interferência do público, a artista busca ampliar e resignificar a prática de fruição usual.
Correta, porque a obra é aberta à interferência do público e transforma a fruição tradicional em participação ativa.
- B)Ao oportunizar a aproximação do público com a obra, a artista indica que essa é a única forma possível de relação entre espectador e obra.
Errada, porque a obra não estabelece uma única forma de relação, mas várias possibilidades de interação com o espectador.
- C)Lygia Clark foi precursora do movimento futurista juntamente com o poeta Ferreira Goulart.
Errada, porque Lygia Clark não foi precursora do futurismo e essa associação com Ferreira Gullar é incompatível com o contexto histórico.
- D)Ao afirmar que ‘não há passividade’ na relação entre a obra e o público, a artista sugere que a obra age sobre ele mediante uma interação uniforme.
Errada, porque a artista destaca justamente a interação não passiva e não uniforme, com participação ativa e transformação da obra.
- E)Lygia Clark e sua obra Bichos são parte do movimento surrealista.
Errada, porque Bichos e a produção de Lygia Clark se vinculam ao neoconcretismo, não ao surrealismo.
Gabarito: A
Lygia Clark é um nome central da arte brasileira do século XX, especialmente quando a prova quer cobrar a passagem da obra contemplativa para a obra vivida. Em Bichos, a peça deixa de ser algo para ser apenas observado e passa a convidar o público a manipular, dobrar e reorganizar as placas de metal. Ou seja, a experiência estética vira participação. Isso amplia a fruição tradicional e também ressignifica a relação entre espectador e obra, que deixa de ser passiva. Esse é o coração da questão: a artista rompe a distância segura entre quem vê e o que é visto. Em vez de uma escultura fechada e estável, ela propõe uma obra que se transforma no contato com o público. A obra ganha quase um comportamento próprio, como se tivesse vida, exatamente como sugere a imagem do "corpo a corpo" citada no enunciado. Por isso, a alternativa A está correta: ao abrir sua obra à interferência do público, Lygia Clark amplia a experiência de fruição, isto é, muda a forma usual de apreciar arte. Ela não quer um espectador sentado na plateia do museu, mas alguém que entre na obra e a complete com sua ação. Essa ideia é muito associada à arte neoconcreta, da qual Lygia Clark é uma das principais representantes. As demais alternativas erram por misturar movimentos artísticos e por exagerar a interpretação da relação obra-público. Futurismo e surrealismo não correspondem ao projeto de Lygia Clark, e a obra não impõe uma única forma de relação, mas justamente abre possibilidades. Em prova CESPE/CEBRASPE, fique atento a isso: quando aparecer participação do público, pense em arte interativa, neoconcretismo e ruptura da passividade.