Leia os fragmentos a seguir. Os “climacéticos” fazem circular, nos meios de comunicação e na internet, informações que desmentem as atividades humanas no clima. Essas informações refletem um verdadeiro debate científico? Le Monde, 23/11/2019 Não. Aliás, eu não classificaria essas pessoas como “céticas”, pois o ceticismo é uma postura necessária para produzir todo progresso da ciência. Chamaria essas pessoas, de preferência, de “negadoras” (deniers, em inglês), termo mais apropriado, visto que ignoram os dados que as ciências do clima tornaram evidentes há quarenta anos. LATOUR, Bruno. Cogitamus – Seis cartas sobre as humanidades científicas. São Paulo: Editora 34, 2016. Como têm pessoas contra a vacina? De onde tiram isso? Como podem ter essa liberdade de falar e serem respeitados como se fossem o outro lado. Alguns são a favor da vacina e outros são contra? Não! Alguns estão do lado da vacina porque impedem doenças. Os que são contra ou são ignorantes, muito ignorantes, ou mal-intencionados. Isso tinha que ter uma ação governamental. VARELLA, Drauzio, Programa Roda Viva, 10/02/2020. Considerando os fragmentos acima, é correto afirmar que, na contemporaneidade,
- A)o negacionismo avança diante da ineficácia da ciência em resolver os problemas atuais.
Errada: o negacionismo cresce mais por desinformação e uso político da dúvida do que pela ineficácia da ciência.
- B)a opinião de todos os leigos é o que define o modo mais eficaz de construção da ciência.
Errada: a ciência não é definida pela opinião dos leigos, mas por método, evidências e validação especializada.
- C)o uso político do ceticismo tem sido fundamental para democratizar a elaboração do método científico.
Errada: o ceticismo político, aqui, não democratiza a ciência; ele é usado para desqualificar consensos científicos.
- D)a elaboração do saber científico conserva a distinção entre o conhecimento especializado e a opinião dos leigos.
Certa: a ciência continua separando conhecimento especializado de opinião leiga, especialmente diante de temas como clima e vacinação.
- E)nas democracias, os modos de fazer ciência devem incorporar, com isonomia, todas as opiniões.
Errada: democracia não significa isonomia entre qualquer opinião e o conhecimento científico; liberdade de fala não equivale a validade científica.
Gabarito: D
A questão trata de uma distinção central na vida contemporânea: uma coisa é discutir ciência com base em evidências, outra bem diferente é transformar opinião em se fosse conhecimento técnico. Os fragmentos falam de negacionismo climático e antivacina, dois exemplos em que se rejeitam dados consolidados por pesquisas e se tenta colocar a desinformação no mesmo nível da ciência. Bruno Latour chama atenção para isso ao dizer que não se trata de simples ceticismo. Ceticismo, na ciência, é dúvida metodicamente controlada, que ajuda a testar hipóteses. Já o negacionismo ignora ou distorce evidências acumuladas. Drauzio Varella segue a mesma linha ao afirmar que ser contra vacina não é uma “outra opinião” equivalente à da comunidade científica, porque vacina é questão de saúde pública baseada em conhecimento especializado. Por isso, o gabarito é a letra D. Na contemporaneidade, a elaboração do saber científico conserva a distinção entre conhecimento especializado e opinião dos leigos. Em outras palavras: em ciência, toda opinião não vale o mesmo peso, porque o que decide é método, prova, revisão por pares e consenso baseado em evidências. A democracia garante liberdade de opinião, mas não transforma palpite em evidência científica. Se quiser uma frase-chave para memorizar: ciência aceita debate, mas não aceita que qualquer opinião desmonte fatos já comprovados. É esse o ponto que a banca quer cobrar.