A percepção da diversidade cultural tem sido objeto de reflexão em diversos contextos históricos, engendrando múltiplas formas de diferenciar e classificar as sociedades. “Há dois tipos de homens cujos corpos estão em contínuo exercício e certamente pensam muito pouco tanto uns como outros em cultivar sua alma: os camponeses e os selvagens. Os primeiros são rústicos, grosseiros, desajeitados; os outros, conhecidos por seu grande senso, são-no também pela sutileza do espírito; geralmente, não há nada de mais lento do que um camponês, nem nada de mais fino do que um selvagem. De onde vem essa diferença? É que o primeiro, sempre fazendo o que mandam, ou o que viu seu pai fazer, ou o que ele próprio fez desde a juventude, sempre segue a rotina e, em sua vida quase que automática, ocupado sem cessar com os mesmos trabalhos, o hábito e a obediência ocupam o lugar da razão.” ROUSSEAU, J. -J. O contrato social. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 137. Com base no trecho, assinale a afirmativa que explica corretamente com base em quais argumentos é justificada a diversidade cultural no documento citado.
- A)As diversidades linguística e cultural são fruto da providência divina, tendo sido promovidas pela criação de línguas diferentes e pela dispersão dos povos.
Errada, porque mistura diversidade cultural com explicação religiosa da origem das línguas, algo que não aparece no trecho de Rousseau.
- B)A alteridade é demonizada e associada à indolência, à incultura e à aversão ao trabalho, características próprias dos selvagens ameríndios.
Errada, porque exagera uma leitura depreciativa dos indígenas e transforma o trecho em puro preconceito, quando o foco é a crítica à sociedade europeia.
- C)As diversidades culturais são usadas como instrumento de crítica das sociedades europeias, idealizando um estado de natureza positivo em oposição à civilização.
Certa, porque o texto usa a diferença entre grupos humanos como contraste para criticar a civilização europeia e valorizar o estado de natureza.
- D)A diversidade cultural é o indicador usado para hierarquizar as sociedades humanas, em uma ordem que vai do mais simples ao mais complexo.
Errada, porque essa alternativa fala em hierarquização linear das sociedades, mas o texto não organiza os povos como uma escala evolutiva.
- E)As diversidades culturais representam a pluralidade de costumes e tradições resultantes dos contatos, trocas e diálogos entre as sociedades.
Errada, porque descreve uma visão mais antropológica e positiva da troca cultural, que não é a lógica presente no trecho.
Gabarito: C
O trecho de Rousseau mostra uma ideia muito cara ao pensamento iluminista: a cultura e os costumes não devem ser tomados como “naturais” e imutáveis, porque podem servir para comparar, criticar e até ridicularizar uma sociedade diante de outra. Aqui, o autor usa a imagem do “selvagem” e do camponês para mexer com a hierarquia que a Europa fazia entre civilização e natureza. Perceba o truque intelectual: Rousseau não está simplesmente descrevendo povos diferentes, mas usando essa diferença para questionar a própria sociedade europeia, marcada por rotina, obediência e artificialidade. O texto funciona como contraste: de um lado, a civilização; de outro, o estado de natureza, frequentemente idealizado como mais livre e mais autêntico. Isso é bem típico de Rousseau em obras como Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e também em O contrato social. Por isso, o gabarito é a letra C. A diversidade cultural, no trecho, aparece como ferramenta de crítica social: ela serve para pôr em dúvida os valores europeus e para construir a oposição entre natureza e civilização. Em vez de celebrar a pluralidade de forma neutra, o autor a usa para argumentar filosoficamente. Na prática, FGV adora esse tipo de leitura: menos “o que o texto diz literalmente” e mais “qual ideia histórica ou filosófica está por trás dele”. Se você enxergar Rousseau, pense logo em crítica à civilização, desigualdade e idealização do estado de natureza.