Em 1961, o crítico Martin Esslin cunhou a expressão “teatro do absurdo”. Para ele, as obras de Beckett e Ionesco, entre outras, expressavam artisticamente a natureza absurda da existência, tal como era discutida pelos pensadores do existencialismo (Jean-Paul Sartre e Albert Camus). Em termos filosóficos gerais, o Absurdo representaria a condição de ininteligibilidade a que chegou o homem moderno em face de suas pretensões humanistas e da realidade em que vive, que contraria frontalmente as primeiras. Com base no trecho, analise as afirmativas a seguir sobre a dramaturgia de Samuel Beckett e Eugène Ionesco. I. É marcada por situações ilógicas, diálogos desconexos e fragmentados que permitem explorar a falta de sentido da vida e da comunicação humanas. II. Do ponto de vista estético, ainda que se recuse a validade filosófica do Absurdo, este representa uma reação revolucionária contra a camisa de força do Realismo. III. Apesar da presença de diálogos ilógicos, os personagens têm complexidade psicológica, motivações claras e dúvidas geradas pelos conflitos internos resultantes de situações da vida cotidiana. Está correto o que se afirma em:
- A)I, apenas.
A alternativa reúne apenas a afirmativa I, que descreve com precisão o teatro do absurdo ao destacar situações ilógicas, diálogos fragmentados e a exploração da falta de sentido da vida e da comunicação humanas. O ponto problemático é que a afirmativa II também corresponde à estética de Beckett e Ionesco, pois esse teatro rompe com as convenções do realismo e funciona como reação radical contra suas formas tradicionais de representação.
- B)I e II, apenas.
Esta é a opção correta porque combina a afirmativa I, verdadeira, com a II, também verdadeira. A I capta o núcleo do teatro do absurdo, marcado pela desarticulação da linguagem e pela crise de sentido, enquanto a II acerta ao apontar sua recusa das fórmulas realistas e sua força de ruptura estética. Essa ligação com o anti-realismo é justamente um dos traços centrais da dramaturgia de Beckett e Ionesco.
- C)I e III, apenas.
A alternativa reúne I e III. A I realmente caracteriza o teatro do absurdo, mas a III erra ao atribuir aos personagens complexidade psicológica, motivações claras e conflitos cotidianos bem definidos, quando o gênero costuma reduzir a psicologia das figuras dramáticas e enfatizar o esvaziamento da comunicação. Em vez de personagens profundos e realistas, Beckett e Ionesco criam presenças descentradas, muitas vezes presas à repetição e ao impasse existencial.
- D)II e III, apenas.
A alternativa combina II e III. A II está alinhada com a leitura estética do teatro do absurdo como reação contra o realismo, mas a III contraria esse mesmo modelo ao pressupor personagens psicologicamente complexos e movidos por conflitos internos cotidianos. Além disso, ela deixa de incluir a I, que é uma das formulações mais características da poética do absurdo.
- E)I, II e III.
A alternativa afirma que as três afirmativas estão corretas. Embora a I e a II estejam de acordo com o teatro do absurdo, a III não procede, porque Beckett e Ionesco não trabalham, em regra, com personagens de psicologia realista e motivações transparentes, mas com figuras marcadas pela desagregação da fala e pela crise de sentido. Por isso, a presença da III invalida essa opção.
Gabarito: B
O chamado teatro do absurdo, associado por Martin Esslin a autores como Samuel Beckett e Eugène Ionesco, nasce da sensação de que a vida moderna perdeu um centro estável de sentido. Por isso, suas peças costumam trazer situações ilógicas, repetição, silêncio, linguagem quebrada e diálogos que parecem andar em círculos. Não é o tipo de teatro que quer “explicar” o mundo com começo, meio e fim bem comportados; ele quer mostrar justamente a crise dessa lógica. A afirmativa I está correta porque descreve exatamente essa estética: personagens falando sem se entender, ações desconcertantes e a comunicação humana aparecendo como algo falho ou até inútil. Em obras como Esperando Godot, de Beckett, o vazio da espera e a fragilidade da linguagem são parte central do efeito dramático. A afirmativa II também está correta. Mesmo que o absurdo seja discutido como problema filosófico ligado ao existencialismo, no plano estético ele funciona como uma reação contra o teatro realista tradicional, que buscava representar a vida de modo coerente e verossímil. Aqui, a ruptura com a “camisa de força” do Realismo é justamente o ponto forte do movimento. Já a afirmativa III está errada. No teatro do absurdo, os personagens geralmente não têm a psicologia bem desenvolvida, nem motivações claras como no drama realista. Eles costumam ser tipos esvaziados, quase figuras do impasse humano, e não sujeitos complexos guiados por conflitos cotidianos bem organizados. Por isso, o gabarito é B: I e II, apenas.