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Artes Cênicas · CONSULPLAN · 2024

Questão comentada de Artes Cênicas

Camadas de sons, cheiros, temperaturas foram apresentadas nessa proposta artística a partir de ações como marcar a ferro as vestes de carne e andar sobre brasas com calçados feitos com o mesmo material orgânico, assim como as ações de cortar e assar a carne de charque (alimento muito consumido no Nordeste brasileiro). Notamos que as ações representavam os suplícios públicos dos que foram torturados e queimados vivos no passado – a carne seca foi exposta como uma metáfora da própria carne humana, do corpo humano fragmentado, esquartejado. Durante trinta minutos, aproximadamente, o próprio artista, Everaldo Santana, Paulo César e Robson Lemos realizaram tais ações; [...] marcar a ferro quente a carne bovina da mesma maneira que os negros escravizados foram estigmatizados por seus proprietários num passado não muito distante. (SANTOS-ZMÁRIO. Fragmento.) O excerto evidencia uma relação corpo-memória; constrói-se uma obra que não cabe mais na boca. Torna-se necessário um estreitamento físico, onde o artista coloca-se em situação, presentificação, descontruindo a ideia de personagem. Essa linguagem híbrida, que retira a noção de objeto, dilata os sentidos, evidencia a presença e desloca o corpo para centralidade da ação, pode ser definida como:

Gabarito: C

A questão descreve uma obra em que o corpo do artista vira a própria matéria da arte: há ação ao vivo, risco, dor, cheiro, temperatura, alimento, memória e presença física. Isso já afasta linguagens mais estáveis e objetuais, porque aqui o centro não é um objeto final, mas o acontecimento em si. Em outras palavras, a obra acontece no tempo, diante do público, e o corpo não interpreta um personagem - ele se expõe como suporte e mensagem. Esse é o coração da performance arte: uma linguagem híbrida, interdisciplinar, que mistura teatro, artes visuais, dança e outras mídias, mas sem se prender a uma cena tradicional. O artista atua com o próprio corpo, provoca sentidos, desloca o espectador e pode trabalhar com temas políticos, sociais e de memória, como no caso da violência histórica contra pessoas escravizadas e torturadas. Por isso o gabarito é a letra C. O enunciado fala em presentificação, corpo-memória, descontruir a ideia de personagem e retirar a noção de objeto. Tudo isso é bem característico da performance, especialmente da vertente da body art e da arte relacional, em que a experiência viva importa mais do que uma peça acabada para contemplação. Não há uma lei específica para isso, mas a classificação é consagrada na doutrina de artes cênicas e artes visuais contemporâneas. Se você viu sangue, ferro, brasas, corpo exposto e ação ao vivo com forte carga simbólica, pense logo: aqui a arte não está só sendo mostrada, ela está sendo vivida diante de você.

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