Em uma entrevista com o crítico Paul Gilroy para sua antologia Small Acts: Thoughts on the Politics of Black Cultures [Pequenos atos: reflexões sobre a política das culturas negras] (1994), a romancista Toni Morrison (1931-2019) argumentou que os sujeitos africanos que vivenciaram a captura, o roubo, o rapto, a mutilação e a escravidão foram os primeiros modernos. ESHUN, Kodwo. Outras considerações sobre o Afrofuturismo. In: Histórias afroatlânticas: antologia. São Paulo: MASP, 2022. O trecho acima apresenta uma relação entre a experiência das populações negras escravizadas e a condição do indivíduo na modernidade. Assinale a opção que apresenta o aspecto que justifica esta afirmação.
- A)A capacidade de manutenção de tradições ancestrais, mesmo sob violência extrema.
Errada, porque preservar tradições é importante, mas não é isso que justifica a ligação com a modernidade no trecho.
- B)A vivência de desenraizamento e fratura, que prefigura a alienação típica da modernidade.
Certa, pois o texto destaca o desenraizamento, a ruptura e a alienação como experiências que antecipam a condição moderna.
- C)A adequação dos indivíduos a novas dinâmicas sociais, facilitando sua incorporação às estruturas modernas.
Errada, porque o trecho não fala em adaptação harmoniosa às estruturas modernas, mas em violência e fratura.
- D)A transformação dos negros em atores fundamentais da expansão colonial e econômica moderna.
Errada, porque embora a escravidão tenha sido central para a economia moderna, a justificativa pedida é a experiência subjetiva do indivíduo, não o papel histórico da expansão colonial.
- E)A rejeição cultural das populações escravizadas à integração no sistema global moderno.
Errada, porque a questão não trata de rejeição à modernidade, e sim da forma como a modernidade foi vivida sob captura e escravidão.
Gabarito: B
A ideia central da questão vem de uma leitura muito forte sobre a modernidade: ela não é só progresso, racionalidade e cidade iluminada. Para muita gente negra trazida à força pelo tráfico atlântico, a experiência moderna começou com ruptura total: separação da família, perda do lugar de origem, violência corporal e desumanização. Ou seja, antes de ser promessa de futuro, a modernidade foi, para esses sujeitos, um choque de desenraizamento. É por isso que o gabarito aponta para a vivência de fratura e alienação. A escravidão não foi um acidente externo à modernidade; ela participou da formação do mundo moderno, inclusive no plano econômico, político e cultural. Autores como Paul Gilroy e o próprio Eshun ajudam a mostrar que a diáspora negra viveu a modernidade pelo avesso: mobilidade forçada, identidade quebrada e necessidade de reconstrução constante de si. Em linguagem simples: imagine ser arrancado de tudo o que dava sentido à sua vida e ter de existir em um mundo que te trata como mercadoria. Isso produz uma experiência muito parecida com o que a modernidade faz ao indivíduo em geral, quando ele se vê isolado, deslocado e fragmentado. Só que, no caso das populações negras escravizadas, isso aconteceu de forma extrema e brutal. Por isso a alternativa B é a correta: ela capta esse desenraizamento e essa fratura existencial que ajudam a explicar a condição moderna do sujeito. As demais opções ou romantizam a resistência, ou falam de integração social e colonial em termos que não correspondem ao ponto central do trecho.