No texto O que significa tornar-se outro?, a antropóloga Aparecida Vilaça argumenta que a experiência xamânica Wari' se caracteriza pela duplicidade corporal. No texto, Vilaça afirma: "O xamã caracteriza-se por possuir dois corpos simultâneos: um corpo humano visível pelos Wari', que se relaciona com eles normalmente, como membro de sua sociedade, e um corpo animal que ele percebe como humano, e que se relaciona com os demais animais daquela espécie também como membro da sua sociedade, que é como a sociedade Wari’" (Vilaça, 2000, p. 63). Com base na explicação de Aparecida Vilaça, é correto afirmar que:
- A)o corpo animal do xamã é uma ilusão criada pelo uso de substâncias alucinógenas, não tendo uma existência real;
Errada, porque o corpo animal não é tratado como mera ilusão, mas como parte real da experiência xamânica e da perspectiva do xamã.
- B)o xamã, ao se transformar em animal, abandona completamente sua identidade humana e se torna um membro da espécie animal;
Errada, porque o xamã não abandona completamente sua identidade humana ao se transformar; ele mantém a duplicidade corporal.
- C)a relação do xamã com o corpo animal é puramente simbólica, representando a conexão espiritual com a natureza;
Errada, porque a relação não é só simbólica: há transformação de perspectiva e de agência, não apenas um "significado espiritual" abstrato.
- D)o xamã utiliza o corpo animal como um disfarce para se aproximar dos animais e obter conhecimento sobre seus hábitos;
Errada, porque não se trata de um disfarce instrumental para enganar animais, mas de uma vivência corporal e cosmológica mais profunda.
- E)o xamã experimenta a simultaneidade de dois corpos, o humano e o animal, cada um com sua própria agência e ponto de vista através de um processo de transformação corporal e de perspectiva.
Certa, porque expressa a duplicidade corporal do xamã Wari', com coexistência de corpos e pontos de vista distintos.
Gabarito: E
A ideia central do texto de Aparecida Vilaça é que o xamanismo Wari' não é uma simples "encenação" nem uma fantasia simbólica: ele envolve uma mudança real de perspectiva sobre o corpo e sobre o mundo. O xamã pode ser visto pelos Wari' como humano no convívio cotidiano, mas, ao mesmo tempo, ele experimenta outro corpo, ligado à espécie animal com a qual se relaciona. Isso significa que ele não deixa de ser humano e também não vira apenas animal. Ele vive uma duplicidade corporal e perspectival. Esse ponto conversa com uma linha forte da antropologia amazônica, em que seres diferentes podem se perceber como humanos a partir de seus próprios pontos de vista. Ou seja: para o xamã, o corpo animal não é mero disfarce nem ilusão; ele é uma forma efetiva de agência e de relação com outro coletivo de seres. O que muda não é só a aparência, mas a própria posição do sujeito no mundo. Por isso, a alternativa E está correta: ela resume bem a simultaneidade de dois corpos, humano e animal, cada um com sua agência e seu ponto de vista. A questão quer que você perceba que, em Vilaça, transformação corporal e transformação de perspectiva andam juntas. Não é teatro, não é alucinação e não é abandono da humanidade, é uma experiência relacional complexa.