Há quase um século, os antropólogos estudam outras formas de vida, como Bronislaw Malinowski e os jardins, Edward Evans-Pritchard e o gado, Gregory Bateson e os golfinhos. Contudo, nas últimas décadas, os praticantes da antropologia têm ampliado as perspectivas que embasam suas etnografias, decentrando análises sobre agência e poder e advogando por uma antropologia mais-que-humana. Uma das viradas teóricas responsáveis por esse decentramento é a virada ontológica. Uma das contribuições feitas pela virada ontológica é:
- A)a crítica decolonial;
Errada, porque a crítica decolonial é uma vertente importante, mas não é a contribuição específica pedida pela virada ontológica.
- B)a defesa da universalidade humana;
Errada, porque a virada ontológica não defende uma universalidade humana única; ela questiona justamente essa suposição.
- C)o abandono de etnografias multiespécie;
Errada, porque a virada ontológica estimulou, e não abandonou, etnografias multiespécie e outras abordagens mais-que-humanas.
- D)a tese da multiplicidade de mundos;
Certa, porque a virada ontológica propõe a tese da multiplicidade de mundos, em vez de um único mundo interpretado de formas diferentes.
- E)a tese da similaridade dos sistemas de parentesco.
Errada, porque a similaridade dos sistemas de parentesco não é uma tese central da virada ontológica nem sua contribuição teórica principal.
Gabarito: D
A virada ontológica aparece na antropologia quando o foco deixa de ser apenas "como diferentes culturas interpretam um mesmo mundo" e passa a considerar que diferentes coletivos podem produzir, viver e conhecer mundos de maneiras realmente distintas. Em vez de tratar tudo como variações de uma mesma realidade universal, essa abordagem valoriza a ideia de que existem múltiplas ontologias, isto é, múltiplas formas de existência e de composição do real. Por isso, ela ajuda a decentrar a análise: humano, não humano, ambiente, técnica, animais e objetos deixam de ser só pano de fundo e passam a participar da produção da vida social. É nesse contexto que a antropologia mais-que-humana ganha força, ampliando o olhar para relações entre espécies, materiais, agentes e cosmologias. O gabarito é a letra D porque a tese central associada à virada ontológica é justamente a multiplicidade de mundos, ou a ideia de que não existe uma única realidade universal descrita por todas as sociedades, mas modos diversos de worlding, de fazer mundo. Isso rompe com explicações etnocêntricas e também vai além do relativismo cultural clássico, que comparava visões de mundo sem necessariamente afirmar mundos diferentes. Em resumo: a virada ontológica não quer só dizer que as pessoas pensam diferente. Ela quer dizer que, em certos contextos, elas podem até habitar e produzir realidades diferentes. É um salto conceitual importante, e a banca gosta muito desse tipo de mudança de lente.