No trecho a seguir, o pensador quilombola, também conhecido como Nêgo Bispo, apresenta uma estratégia contracolonial para a relação com a língua. Certa vez, fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: “Como podemos contracolonizar falando a língua do inimigo?”. E respondi: “Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento”. BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023. Assinale a opção que corresponde à estratégia apresentada.
- A)A desconstrução da língua do colonizador, evidenciando a fluidez e a falta de fixidez de seus significados.
Errada: não se trata de desconstruir a língua no sentido de mostrar apenas sua fluidez, mas de disputar politicamente o significado das palavras.
- B)A rejeição da língua colonizadora, apostando a revitalização de línguas ancestrais como ato de resistência.
Errada: o trecho não defende abandonar a língua colonizadora e substituir por línguas ancestrais, e sim usar a língua dominante de modo estratégico.
- C)A inversão de valor ideológico dos termos da língua dominante, questionando as suas bases.
Certa: a fala propõe inverter e enfraquecer os sentidos valorizados pelo colonizador, ao mesmo tempo em que fortalece palavras e visões próprias.
- D)A ampliação do sentido das palavras do colonizador, expandindo sua aplicação a diferentes contextos culturais.
Errada: a proposta não é só ampliar contextos de uso, mas alterar o valor ideológico e crítico das palavras.
- E)O uso da argumentação lógica, expondo contradições presentes no sistema embutido na linguagem do opressor.
Errada: embora haja crítica ao sistema do opressor, o foco não é a argumentação lógica, e sim a reconfiguração simbólica da linguagem.
Gabarito: C
Nêgo Bispo trabalha com a ideia de contracolonialidade, isto é, enfrentar a lógica do colonizador sem simplesmente copiar o jeito dele pensar. No trecho, ele mostra uma tática bem inteligente: usar a própria língua dominante, mas mexendo no valor das palavras. É quase um "vira-casaca" semântico: o que era forte para o opressor passa a ser enfraquecido; o que era apagado pelos dominados ganha potência. Perceba que ele não está propondo abandonar a língua do colonizador nem fazer uma pura troca de vocabulário. A ideia é disputar sentido. Se o colonizador fala em "desenvolvimento" como se fosse algo automaticamente bom, Nêgo Bispo responde recolocando a palavra em outro campo de significado, mostrando seus limites e efeitos negativos. Isso é muito típico de estratégias de resistência simbólica: não basta falar, é preciso re-significar. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela acerta porque descreve exatamente a inversão de valor ideológico dos termos da língua dominante, questionando suas bases. Em vez de aceitar os sentidos impostos, a estratégia é virar o jogo por dentro da linguagem. É uma forma de luta cultural e política, bem alinhada com debates antropológicos sobre poder, discurso e produção de sentidos. Se você quiser uma imagem fácil: não é quebrar o tabuleiro, é mudar as regras da partida enquanto o jogo acontece. E isso, em prova, costuma aparecer como crítica à linguagem do poder, à colonialidade e à disputa por significados.