Pensava-se que o ônibus espacial Columbia era um objeto pronto para voar pelo céu, e então, de repente, após a dramática explosão de 2002, percebeu-se que ele precisava da NASA e de seu complexo corpo organizacional para voar com segurança pelo céu. Para a ação de pilotar um objeto técnico, rotinas burocráticas são tão importantes quanto equações e resistência material. LATOUR, Bruno. Networks, Societies, Spheres: Reflections of an Actor-Network Theorist. International Journal of Communication, v. 5, 2011. (Adaptado) O trecho acima expõe uma leitura baseada na Teoria Ator-Rede (TAR), a qual modifica o entendimento comum a respeito do modo de existência dos objetos. Segundo esse tipo de visada, ao investigar um objeto, é preciso levar em conta
- A)as suas propriedades internas, as quais determinam seu funcionamento enquanto ser autônomo.
Errada, porque a TAR rejeita a ideia de que as propriedades internas, sozinhas, expliquem o funcionamento do objeto.
- B)a sua base mais essencial, que pode mantê-lo inalterado mesmo sob a influência de condições externas.
Errada, porque a teoria não busca uma essência imutável do objeto, mas sim suas conexões e mediações.
- C)os seus pontos fracos, de modo a explicitar de antemão os fatores que criam riscos para sua existência.
Errada, porque o foco da TAR não é mapear fraquezas ou riscos isolados, e sim as associações que sustentam o objeto.
- D)a sua dependência de agentes humanos que garantem, enquanto sujeitos, sua estabilidade objetiva.
Errada, porque reduz a análise apenas aos agentes humanos, quando a TAR inclui também elementos materiais, técnicos e institucionais.
- E)as suas interações, as quais envolvem elementos variados em uma relacionalidade complexa.
Certa, porque a TAR entende o objeto como resultado de interações e associações entre elementos variados em uma rede complexa.
Gabarito: E
A Teoria Ator-Rede, associada a Bruno Latour, quebra a ideia de que um objeto técnico funciona sozinho, como se tivesse vida própria e bastasse “ser bem feito” para operar. Para essa visão, um artefato só existe de fato em ação quando está ligado a uma rede de elementos: pessoas, instituições, normas, rotinas, materiais, conhecimentos e até tecnologias auxiliares. Em outras palavras, o objeto não é um herói solitário, mas um “time” em funcionamento. No exemplo do ônibus espacial Columbia, a mensagem é clara: não basta olhar para a estrutura física do objeto e para suas peças internas. É preciso considerar as conexões que permitem seu funcionamento seguro, como a NASA, sua organização, os procedimentos burocráticos, os técnicos, os controles e as decisões coletivas. A técnica, aqui, não é só engenharia; é também rede social e organizacional. Por isso, a resposta correta é a letra E, porque a TAR pede que você examine as interações entre elementos diversos em uma relacionalidade complexa. O foco não está em uma essência fixa do objeto, mas no conjunto de associações que o sustentam e o fazem agir. É o típico caso em que o “objeto” parece simples até você descobrir que ele depende de uma pequena civilização ao redor dele. Esse jeito de pensar combina com a sociologia da ciência e da técnica de Latour: os objetos são produzidos e mantidos por redes sociotécnicas. Então, ao investigar qualquer objeto, você precisa observar tanto os elementos materiais quanto os humanos e institucionais que o fazem existir e operar.