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Antropologia · FGV · 2025

Questão comentada de Antropologia

Lygia Sigaud foi uma antropóloga brasileira que se dedicou aos estudos das relações sociais no campo. No seu artigo Se eu soubesse, a autora descreve as relações entre trabalhadores e patrões da seguinte forma: "Do ponto de vista do observador, a ‘casa de morada’, a terra e a proteção constituíam obrigações patronais, assim como não trabalhar fora e ser leal ao patrão correspondiam a obrigações dos moradores. Para esses, apenas as suas obrigações eram percebidas enquanto tais. As do patrão eles representavam como dons, como sinais de sua bondade, e sentiam-se, portanto, devedores. Desincumbir-se com afinco de suas obrigações era a forma de retribuir. De sua parte, o patrão se concebia como um doador: aquilo que concedia ao seu morador atestava apenas a sua generosidade e não era vivido como uma obrigação. Ser generoso era um valor e o prestígio dos patrões se media pelos sinais exteriores de sua magnanimidade. O não cumprimento de suas obrigações punha em risco o prestígio do patrão perante os pares e os moradores e configurava uma dívida, ainda que ele não se concebesse como um devedor” (Sigaud, 2012, p. 130). A teoria das trocas que embasa a descrição e a análise da autora é:

Gabarito: B

A questão explora uma ideia clássica da antropologia: nem toda troca social funciona como compra e venda. Em muitos contextos, sobretudo nas análises de Marcel Mauss, dar, receber e retribuir cria vínculos morais, prestígio e obrigação recíproca. Ou seja, a troca não é só material, ela também produz relação social. No trecho de Lygia Sigaud, o patrão aparece como alguém que “dá” casa, terra e proteção, enquanto o morador retribui com lealdade, trabalho e permanência. Isso parece generosidade de um lado e gratidão do outro, mas, na leitura antropológica, esses gestos formam um sistema de obrigações recíprocas. É exatamente a lógica da dádiva: o dom nunca é totalmente gratuito, porque cria dívida simbólica e necessidade de retribuição. Por isso, o gabarito é a letra B. A autora descreve uma relação em que as prestações são vividas moralmente como dons, e não como contratos impessoais. Esse é o ponto central da teoria da dádiva, formulada por Mauss no clássico Ensaio sobre a dádiva, muito cobrada em antropologia das trocas. Em resumo: se a banca mostra uma relação social em que oferecer algo gera prestígio, vínculo e obrigação de devolver, pense logo em dádiva, não em mercado. Aqui o foco não é preço, lucro ou cálculo individual, mas reciprocidade e dívida social.

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