No texto a seguir, os autores criticam um modo de entender a história da espécie humana que se tornou senso comum entre leigos e estudiosos. O mundo dos caçadores-coletores, antes da chegada da agricultura, era repleto de experiências sociais arrojadas, parecendo muito mais um variado desfile carnavalesco de formas políticas do que as insípidas abstrações da teoria evolucionária. Além disso, muitas das primeiras comunidades agrícolas eram relativamente isentas de níveis e hierarquias. E, longe de estabelecer sólidas diferenças de classe, um número surpreendente das primeiras cidades do mundo se organizava segundo linhas de claro teor igualitário, que dispensavam governantes autoritários, políticos-guerreiros ambiciosos ou mesmo administradores opressores. GRAEBER, David; WENGROW, David. O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Trata-se da ideia de que
- A)a espécie humana evoluiu de formas igualitárias para estruturas cada vez mais hierárquicas, seguindo uma linha de progresso inevitável.
Correta, porque apresenta exatamente a visão evolucionista linear que o texto critica.
- B)a agricultura e a urbanização foram etapas necessárias para o surgimento de estruturas igualitárias, pois permitiram o florescimento cultural.
Errada, porque inverte a lógica do texto e trata agricultura e urbanização como causas necessárias do igualitarismo.
- C)a hierarquia social é um fenômeno esporádico, sem relação com o desenvolvimento tecnológico ou econômico das sociedades.
Errada, porque o texto não diz que a hierarquia é esporádica; ao contrário, questiona a ideia de trajetória única e inevitável.
- D)a diversidade política das sociedades antigas comprova que o igualitarismo só é viável em comunidades pequenas e nômades.
Errada, porque reduz o igualitarismo às pequenas comunidades nômades, o que o texto contesta ao mostrar experiências igualitárias em diferentes contextos.
- E)a acumulação de excedentes nas sociedades agrícolas levou a diferentes arranjos políticos, alguns dos quais evitaram a centralização do poder.
Errada, porque reconhece a diversidade de arranjos políticos, mas não expressa a tese criticada no enunciado sobre uma evolução inevitável para a hierarquia.
Gabarito: A
A questão cobra uma crítica bem conhecida na antropologia e na história social: a ideia de que a humanidade teria seguido uma linha reta e inevitável, saindo de grupos simples e igualitários para sociedades cada vez mais hierarquizadas, com agricultura, cidades e Estado aparecendo como se fossem degraus obrigatórios do “progresso”. O texto de Graeber e Wengrow bate justamente nessa tecla: a história humana não foi um trilho único, mas um campo cheio de possibilidades, experimentos políticos e formas variadas de organização social. Isso conversa com a antropologia econômica e com a antropologia das religiões no ponto em que mostra como a vida social não se resume à técnica ou à produção. Divisão do trabalho, troca, consumo, ritos e cerimônias podem gerar diferentes arranjos de poder, prestígio e cooperação, sem que isso produza automaticamente mais hierarquia. Em outras palavras: agricultura não é sinônimo automático de desigualdade, nem cidade é sinônimo obrigatório de tirania. A realidade foi bem mais bagunçada, e é justamente isso que o texto quer mostrar. Por isso o gabarito é a alternativa A: ela expressa a visão evolucionista linear que os autores criticam. Essa leitura supõe um avanço inevitável da humanidade, de formas igualitárias para estruturas cada vez mais hierárquicas, como se a história tivesse um roteiro fixo e sem improviso. Os autores do texto rejeitam essa ideia e defendem que as sociedades antigas eram muito mais diversas do que esse modelo simplificador sugere. Em prova, a pista é desconfiar de palavras como “inevitável”, “necessária”, “linha de progresso” e “sempre”. Quando aparecer esse pacote, a banca costuma estar testando se você percebeu a crítica ao evolucionismo social clássico, muito associado a uma narrativa simplificada da passagem do “primitivo” ao “civilizado”.