Em Rituais ontem e hoje, Mariza Peirano analisa o carnaval como um ritual que expressa as ambiguidades e os dilemas da sociedade brasileira. A autora destaca: "O carnaval produz uma realidade que desfaz o dia a dia em um processo violento de individualização” (Peirano, 2003, p. 26). De acordo com essa análise, o principal efeito do carnaval na sociedade brasileira consiste em:
- A)reforçar as hierarquias sociais existentes, consolidando as estruturas de poder;
Errada, porque o carnaval não tem como principal função reforçar a ordem social, mas criar uma suspensão provisória dela.
- B)promover a homogeneização cultural, eliminando as diferenças e individualidades;
Errada, porque a festa não apaga as diferenças culturais e individuais; ao contrário, costuma intensificá-las em formas expressivas.
- C)reproduzir, de forma simbólica, as desigualdades presentes na sociedade;
Errada, porque a questão destaca a inversão e a suspensão ritual, não a simples reprodução simbólica das desigualdades.
- D)estimular o consumo e o espetáculo, desprovido de qualquer dimensão simbólica ou cultural;
Errada, porque o carnaval tem forte dimensão simbólica e cultural, não sendo apenas consumo e espetáculo.
- E)subverter temporariamente a ordem social, permitindo a expressão de identidades e comportamentos normalmente reprimidos.
Certa, porque o carnaval funciona como ritual de suspensão temporária da ordem, liberando identidades e comportamentos normalmente contidos.
Gabarito: E
Mariza Peirano lê o carnaval como um ritual, isto é, uma prática coletiva que não é mero entretenimento, mas um momento em que a sociedade encena tensões, inversões e valores. Em antropologia, ritual não serve só para “celebrar”: ele também organiza simbolicamente a vida social e pode embaralhar, por um tempo, o que parece fixo no cotidiano. Quando a autora diz que o carnaval “desfaz o dia a dia” em um processo violento de individualização, ela chama atenção para o fato de que, na festa, as pessoas saem provisoriamente das rotinas e papéis habituais. Máscaras, fantasias, blocos, fantasias de gênero, corpo e exagero criam um espaço de suspensão das regras mais rígidas da vida cotidiana. Isso não significa que o carnaval elimine de vez a ordem social, mas sim que ele a suspende temporariamente, abrindo espaço para expressões que costumam ficar controladas no dia a dia. É por isso que o gabarito é a letra E: o carnaval permite a vivência momentânea de identidades, comportamentos e relações que normalmente ficam reprimidos ou disciplinados. Na linha da antropologia dos rituais, essa leitura conversa com autores como Victor Turner, para quem momentos rituais podem produzir inversões, liminaridade e uma sensação de “entre-lugar”. No caso brasileiro, Peirano mostra justamente essa ambiguidade: o carnaval é festa, mas também é uma forma de dizer algo sobre a própria sociedade.