Leia o texto a seguir. [É] nosso modesto parecer que o futuro da noção-mestra da antropologia, a noção de relação, depende da atenção que a disciplina souber prestar aos conceitos de diferença e de multiplicidade, de devir e de síntese disjuntiva. Uma teoria pósestruturalista da relacionalidade, isto é, uma teoria que mantenha o compromisso “infundamental” do estruturalismo com uma ontologia relacional, não pode ignorar (...) as ideias de perspectiva, força, afeto, hábito, evento, processo, preensão, transversalidade, devir e diferença. VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas canibais. São Paulo: Cosac Naify, 2015. O pensamento pós-estruturalista busca um afastamento crítico de características fundamentais do modelo estruturalista. Uma dessas características é
- A)a abertura dos sistemas simbólicos às influências do contexto e das contingências.
Errada, porque a abertura aos contextos e às contingências é mais típica de leituras pós-estruturalistas do que do estruturalismo clássico.
- B)o compromisso com a ideia de que a interação é a base da organização cultural.
Errada, porque o estruturalismo não toma a interação como base da organização cultural; ele busca estruturas e relações mais profundas que organizam os fenômenos.
- C)a remissão de toda multiplicidade cultural a um conjunto de elementos básicos articulados
Certa, pois o estruturalismo procura reduzir a diversidade cultural a elementos básicos e às relações entre eles, como faz Lévi-Strauss ao analisar mitos e sistemas simbólicos.
- D)o foco na descrição e na listagem dos fenômenos culturais em suas manifestações e diversidade.
Errada, porque descrever e listar fenômenos culturais é mais próprio de etnografias descritivas, não do projeto estruturalista de identificar estruturas subjacentes.
- E)a impossibilidade de sistematizar de maneira unificada as dinâmicas da cultura.
Errada, porque o estruturalismo justamente pretende sistematizar e unificar a análise das culturas por meio de estruturas e relações recorrentes.
Gabarito: C
O estruturalismo, especialmente em Lévi-Strauss, parte da ideia de que por trás da variedade enorme das culturas existem estruturas profundas, quase como uma arquitetura invisível que organiza os fenômenos. Em vez de olhar cada costume isoladamente, ele tenta enxergar as relações entre os elementos e como eles se combinam em sistemas. É por isso que o pensamento estruturalista gosta de comparar mitos, parentesco, classificações e símbolos, buscando padrões recorrentes. Nessa lógica, a diversidade cultural não aparece como algo totalmente solto ou caótico. Pelo contrário: a multiplicidade é frequentemente reduzida a unidades mais básicas que se articulam entre si. O ponto central é justamente esse movimento de decompor a variedade em elementos e relações fundamentais, para então reconstruir o sistema. No Brasil, Lévi-Strauss é um clássico dessa linha, e Radcliffe-Brown também contribuiu para a visão estrutural-funcional das relações sociais. O texto de Viveiros de Castro critica esse modelo ao propor um olhar pós-estruturalista, mais atento a diferença, devir, processo e multiplicidade. Ou seja, ele quer ir além da ideia de uma estrutura fixa por trás de tudo. Mas a questão cobra a marca típica do estruturalismo, e ela está na alternativa C: a remissão da multiplicidade cultural a um conjunto de elementos básicos articulados. Em resumo: o estruturalismo gosta de encontrar o esqueleto por baixo da roupa cultural. Essa é a chave da questão: enquanto o pós-estruturalismo enfatiza fluidez, contexto e transformação, o estruturalismo aposta na existência de estruturas relativamente estáveis que organizam os sentidos. Então, se a banca pede uma característica fundamental do modelo estruturalista, pense logo em análise de relações, pares, oposições e elementos mínimos organizados em sistema.