Leia o trecho a seguir. Não foram apenas os intelectuais racistas formuladores das propostas de branqueamento racial ou os propagadores da mestiçagem hierarquizada e cordial que viram os povos bantos como dotados de um conjunto de práticas desprovidas de maior profundidade. Até mesmo intelectuais comprometidos com a valorização das culturas africanas para a formação da identidade brasileira consideraram os saberes e espiritualidades dos bantos menos sofisticados, complexos e elaborados do que os dos iorubás, trouxeram ao Brasil o culto dos orixás. SIMAS, Luiz Antonio. Umbandas: uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022. Com base no trecho, que aborda as tensões em torno das culturas africanas no Brasil, assinale a afirmativa correta.
- A)A categorização das culturas africanas reproduziu uma lógica de dominação mesmo em discursos que buscaram exaltar a herança cultural dos subalternizados.
Correta, porque mostra que até discursos favoráveis às culturas africanas podiam manter hierarquias e reproduzir dominação simbólica.
- B)Os ideólogos conservadores da mestiçagem tomaram as culturas banto como exemplares das características então desejadas para a sociedade brasileira.
Errada, porque o trecho diz justamente o contrário: os bantos foram vistos como menos sofisticados, não como modelo ideal da sociedade brasileira.
- C)A hierarquização das culturas africanas foi uma estratégia deliberada das elites coloniais para dividir as populações escravizadas e enfraquecer a resistência cultural.
Errada, porque a questão não afirma uma estratégia deliberada das elites coloniais para dividir escravizados, mas sim a hierarquização feita por intelectuais em diferentes contextos.
- D)Os intelectuais reconhecedores da influência positiva das culturas africanas no Brasil tomaram a simplicidade das culturas banto como modelo.
Errada, porque o texto aponta uma desvalorização das culturas banto, não o reconhecimento de sua simplicidade como referência positiva.
- E)A predominância dos cultos de matriz iorubá no imaginário brasileiro reflete imparcialidade na valorização das diferentes culturas trazidas ao Brasil.
Errada, porque o trecho critica a assimetria na valorização das matrizes africanas; não há imparcialidade, mas sim preferência hierarquizante.
Gabarito: A
O trecho chama atenção para um ponto clássico da Antropologia: mesmo quando alguém diz valorizar a cultura africana, pode acabar reproduzindo hierarquias entre os próprios grupos africanos. No Brasil, isso apareceu na forma de comparar povos, como se uns fossem mais "sofisticados" e outros mais "simples". Na prática, essa classificação não era neutra: ela carregava a velha lógica de dominação, só que com roupa nova. A questão remete a uma leitura crítica sobre as representações das culturas africanas no Brasil. Em vez de reconhecer a riqueza e a complexidade de todas elas, certos intelectuais ajudaram a construir uma escala de valor em que os bantos seriam vistos como menos elaborados do que os iorubás. Isso mostra que o elogio à herança africana podia vir acompanhado de seleção, filtro e desigualdade simbólica. É por isso que o gabarito é a alternativa A. Ela capta justamente a ideia de que a categorização das culturas africanas reproduziu uma lógica de dominação mesmo em discursos que pretendiam exaltar os grupos subalternizados. Ou seja: não basta falar em valorização cultural, porque às vezes a valorização vem com hierarquia embutida. Esse tipo de leitura é bem importante em Antropologia, porque a disciplina critica o etnocentrismo e as classificações que tratam culturas diferentes como mais ou menos desenvolvidas. O ponto central é simples: comparar não é problema; transformar comparação em ranking moral ou cultural é que costuma dar ruim.