Leia o trecho a seguir. O antropólogo Darcy Ribeiro, em seu grande (mas hoje controverso) livro Os Índios e a Civilização, [concluiu que], em termos estatísticos, não haveria mais indígenas no país na virada do século XX para o XXI. (...) [N]a virada do século, Eduardo Viveiros de Castro apontou que não se havia considerado à época que a integração era na verdade um vetor de duas direções: significava não apenas o que parecia inevitável, o deixar de serem índios, mas também o que se veria, o voltar a ser índios, quando isso se tornou possível com novos aliados, nova mobilização e novos direitos. COHN, Clarice; COHN, Sergio. Indígenas em movimento. Breve história do Movimento Indígena no Brasil. Rio de Janeiro: Oca, Translado, 2025. O trecho acima discorre sobre os destinos das populações indígenas brasileiras ao longo do último século. O trecho aponta para o fato de que
- A)a inclusão das populações indígenas na sociedade nacional decorreu da assimilação de identidades culturais renovadas.
Errada, porque reduz a participacao indigena a uma assimilacao cultural, quando o trecho destaca tambem a retomada identitaria e politica.
- B)a sobrevivência das culturas indígenas ocorreu graças ao tardio reconhecimento oficial de sua relevância histórica.
Errada, pois o texto nao fala de simples reconhecimento tardio, mas de mobilizacao indigena e mudanca nas relacoes de poder.
- C)o desaparecimento das culturas indígenas originais foi acelerado pela conquista de direitos civis contemporâneos.
Errada, porque os direitos civis contemporaneos nao aceleraram o desaparecimento; ao contrario, ajudaram na reorganizacao e reivindicacao indigena.
- D)a persistência dos povos indígenas resultou da resistência radical à negociação com grupos não indígenas.
Errada, porque os povos indígenas nao dependem apenas de resistencia sem negociacao; o trecho menciona novos aliados e articulacao politica.
- E)a interação entre indígenas e sociedade nacional teve resultados tanto assimilacionistas quanto reivindicatórios.
Certa, pois expressa bem o duplo movimento de assimilacao e de reivindicacao identitaria/politica descrito no trecho.
Gabarito: E
O trecho conversa com uma ideia central da antropologia sobre os povos indígenas no Brasil: eles nao “desaparecem” simplesmente quando entram em contato com a sociedade nacional. Muitas vezes, acontece o contrario do que visoes antigas imaginavam. O contato pode produzir assimilacao em certos contextos, mas tambem rearticulacao identitaria, retomada de territorios, reorganizacao politica e luta por direitos. Em outras palavras, a historia indigena nao e uma linha reta de sumiço, e sim um movimento bem mais tortuoso e cheio de idas e vindas. Essa e a chave do gabarito. O texto cita Darcy Ribeiro e a critica de Eduardo Viveiros de Castro para mostrar que a integracao nao teve apenas um efeito de “deixar de ser indio”. Com novos aliados, mobilizacao politica e reconhecimento juridico, muitas populacoes passaram a “voltar a ser indios”, isto e, a afirmar publicamente identidades e pertencimentos que antes estavam pressionados, ocultados ou deslegitimados. Isso nao quer dizer inventar uma identidade do nada, mas reativar e reorganizar formas de existencia indigena. Por isso, a alternativa correta e a E: a interacao entre indigena e sociedade nacional gerou tanto efeitos assimilacionistas quanto reivindicatorios. Essa leitura combina com a antropologia contemporanea e com a realidade brasileira recente, marcada pelo fortalecimento do movimento indigena e por direitos reconhecidos na Constituicao de 1988, que assegura a organizacao social, costumes, linguas, crencas e os direitos originarios sobre as terras tradicionalmente ocupadas (art. 231). Resumindo: o texto nao fala de um povo que sumiu, nem de uma resistencia isolada e radical, mas de relacoes historicas ambivalentes, em que houve pressao para assimilacao e, depois, reemergencia politica e identitaria. E exatamente esse “vai e volta” que a FGV queria que voce enxergasse.