O Ensaio sobre a dádiva de Marcel Mauss foi publicado originalmente na revista Année Sociologique (1923-1924), sendo considerado uma obra central para a teoria antropológica. A respeito das noções de dom, troca e reciprocidade mobilizadas no ensaio citado, é correto afirmar que:
- A)os contratos firmados entre diferentes clãs e tribos mediante a troca de presentes nas sociedades arcaicas configuravam um sistema de dons entre indivíduos que antecedia a economia de mercado;
Errada, porque Mauss não trata a dádiva como simples antecedente da economia de mercado nem como contrato entre indivíduos isolados, mas como relação social ampla entre grupos.
- B)as trocas cerimoniais que materializavam os sistemas da dádiva eram uma forma de escambo de presentes e prestações de serviços úteis, com o fim de atender as necessidades materiais dos envolvidos;
Errada, porque o ensaio não explica a dádiva como escambo utilitário voltado apenas a necessidades materiais, e sim como obrigação social e simbólica de dar, receber e retribuir.
- C)o sistema de reciprocidade inerente ao modelo de dom e contra-dom extrapolava a esfera econômica, apresentando-se como a materialização de dádivas altruístas inerentes à vida religiosa;
Errada, porque a reciprocidade em Mauss não se limita à esfera religiosa nem é baseada em altruísmo; ela envolve obrigação social e interesse simbólico, político e econômico.
- D)a lógica tradicional das trocas pressupunha uma abstração simbólica dos bens e serviços em circulação, desassociando-os de seus proprietários e valorando-os por sua raridade ou natureza utilitária;
Errada, porque Mauss não fala em abstração dos bens e serviços por sua raridade ou utilidade, mas na carga pessoal e espiritual que os objetos carregam na troca.
- E)a circulação de objetos, pessoas e serviços mobilizava também uma troca constante de matéria espiritual em um sistema em que tudo poderia ser objeto de troca e nada poderia ser recusado.
Certa, porque expressa a ideia maussiana de que a dádiva mobiliza pessoas, coisas e dimensões espirituais, criando uma obrigação de reciprocidade que não pode ser simplesmente recusada.
Gabarito: E
Marcel Mauss mostrou que a dádiva não é um gesto gratuito e inocente, tipo “toma aqui um presente e fique em paz”. Para ele, nas sociedades estudadas, dar, receber e retribuir formam um circuito obrigatório que envolve parentesco, prestígio, religião, política e economia ao mesmo tempo. Por isso, a troca não se limita ao valor material do objeto: ela carrega a presença social de quem doa e cria vínculos entre pessoas e grupos. No ensaio, Mauss destaca que os objetos dados não circulam sozinhos. Eles levam consigo algo do doador, uma força social e espiritual que obriga o outro a responder. Essa é a lógica da reciprocidade: quem recebe fica comprometido a devolver, porque recusar, aceitar sem retribuir ou interromper a circulação quebra a relação social. É exatamente isso que a alternativa E capta bem ao falar da circulação de objetos, pessoas e serviços, junto com uma troca constante de matéria espiritual, em um sistema no qual tudo pode entrar na troca e nada deve ser recusado. A ideia dialoga com o famoso conceito do hau, associado por Mauss a essa carga social e espiritual das coisas doadas. As demais alternativas reduzem a dádiva a escambo utilitário, economia primitiva ou altruísmo religioso, mas Mauss vai além disso: para ele, a dádiva é um fato social total, isto é, um fenômeno que mistura dimensões econômicas, morais, jurídicas, religiosas e simbólicas.