No fragmento a seguir, Marcel Mauss discorre sobre a vida econômica em determinadas sociedades não ocidentais, propondo um contraste em relação às concepções modernas. [T]oda essa economia muito rica está cheia de elementos religiosos: a moeda tem ainda seu poder mágico e ainda está ligada ao clã ou ao indivíduo; as diversas atividades econômicas, por exemplo o mercado, ainda estão impregnadas de ritos e de mitos; conservam um caráter cerimonial, obrigatório, eficaz; estão repletas de ritos e de direitos. É algo muito diferente do útil que circula nessas sociedades, a maioria delas já bastante esclarecidas. MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003. De acordo com o fragmento, assinale a afirmativa correta.
- A)As trocas comerciais são acompanhadas por ritos complementares voltados ao reforço de laços sociais.
Errada, porque o texto não fala apenas em ritos complementares, mas em uma economia inteiramente atravessada por elementos religiosos e sociais.
- B)A dimensão do sagrado interfere na vida econômica coletiva à maneira de uma particularidade étnica.
Errada, porque o fragmento não trata o sagrado como uma simples particularidade étnica, e sim como parte estrutural da vida econômica coletiva.
- C)As trocas estão imersas em dimensões simbólicas e se situam para além do nível estritamente utilitário.
Certa, porque o texto afirma que as trocas e a moeda estão ligadas a ritos, mitos e valores simbólicos, indo além da utilidade estrita.
- D)A relação entre religiosidade e economia altera o pragmatismo da vida cotidiana durante celebrações.
Errada, porque a ideia não é uma mudança pontual no pragmatismo em festas ou celebrações, mas uma característica mais ampla da organização econômica.
- E)As práticas econômicas são rudimentares e ainda estão subordinadas às esferas política e religiosa.
Errada, porque o fragmento não afirma que as práticas são rudimentares nem que a economia fica subordinada à política e à religião; ele destaca a integração entre essas esferas.
Gabarito: C
Marcel Mauss mostra que, em muitas sociedades não ocidentais, a vida econômica não aparece separada da religião, do parentesco e dos ritos. Ou seja, trocar não é só calcular preço e utilidade: é também criar vínculos, cumprir obrigações e ativar símbolos que dão sentido social à circulação de bens. Isso contrasta com a visão moderna, mais “seca”, em que a economia costuma ser pensada como esfera autônoma e guiada pelo interesse individual. O ponto central do fragmento é justamente esse: o mercado, a moeda e as trocas ainda estão impregnados de magia, rituais e deveres coletivos. Em Mauss, a economia tem uma dimensão moral e simbólica, e não apenas utilitária. É por isso que a troca pode envolver reciprocidade, prestígio, alianças e até religiosidade, como se o objeto carregasse algo da pessoa ou do grupo que o oferece. A alternativa C está correta porque resume bem essa ideia de que as trocas estão imersas em dimensões simbólicas e vão além do mero cálculo utilitário. Isso é totalmente compatível com a antropologia de Mauss, especialmente com a noção de dádiva: dar, receber e retribuir não é só economia, é também organização social. Se quiser guardar a ideia em uma frase: para Mauss, em muitas sociedades, a economia não anda sozinha - ela vai de braço dado com o sagrado, o rito e a vida coletiva.