Leia o trecho a seguir. Se, por um lado, o sonho é sempre desencadeado pela vontade de um outro, e o sonhador aparece como uma “presa”, uma vítima, alguém à mercê de um sentimento que lhe é alheio, por outro, o sonhador não está de forma alguma inteiramente subjugado aos sentimentos desse outro. Os vivos resistem aos apelos incessantes desses outros, e é porque resistem que eles podem continuar existindo como Yanomami. LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022. O trecho acima apresenta um aspecto central da concepção Yanomami de sonho. Com base no texto, é correto afirmar que, para esse povo, os sonhos são
- A)manifestações do inconsciente individual, nas quais desejos reprimidos encontram expressão simbólica.
Errada, porque reduz o sonho a um inconsciente individual e a desejos reprimidos, o que não corresponde à concepção Yanomami descrita no texto.
- B)realidades passageiras, às quais faltam o poder de afetar a existência material do indivíduo na vigília.
Errada, porque trata os sonhos como algo sem efeito real na vida, mas o trecho mostra que eles impactam diretamente a existência e a continuidade do grupo.
- C)processos psíquicos subconscientes, através dos quais o indivíduo elabora situações traumáticas.
Errada, porque psicologiza o sonho como elaboração traumática interna, enquanto o texto enfatiza a presença de agentes e forças externas.
- D)experiências espirituais, nas quais o indivíduo tem contato com o plano que rege sua vida de forma determinista.
Errada, porque sugere uma experiência espiritual determinista e passiva, mas o texto destaca também a resistência ativa do sonhador.
- E)expressões de um embate, nas quais se chocam forças alheias e a insistência vital da pessoa.
Certa, porque expressa a ideia de confronto entre forças alheias que agem no sonho e a capacidade da pessoa de resistir e continuar existindo.
Gabarito: E
Na Antropologia, sonhos não são tratados, em muitas sociedades, como simples “filmes da mente”, mas como experiências socialmente carregadas, capazes de envolver relações com seres, espíritos, ancestrais e forças externas ao sonhador. No caso Yanomami, o trecho mostra exatamente isso: o sonho é provocado pela vontade de um outro e coloca a pessoa em confronto com algo que vem de fora, não apenas de dentro da cabeça dela. O ponto central é que o sonhador não fica totalmente passivo. Ele pode resistir aos apelos desses outros e, justamente por essa resistência, continua existindo como Yanomami. Então o sonho aparece como um campo de disputa, um embate entre forças alheias e a vitalidade da pessoa. Por isso, a alternativa correta é a que descreve os sonhos como experiências de choque entre forças externas e a insistência vital do sujeito. A leitura combina bem com a etnografia citada por Hanna Limulja: sonho, aqui, não é enfeite psicológico, é relação, tensão e sobrevivência social e cosmológica. Em termos comparativos, isso se afasta da visão ocidental mais comum, que tende a entender sonho como expressão do inconsciente individual, tipo Freud ou psicologia do eu. Na perspectiva Yanomami apresentada no texto, o sonho é menos “meu teatro interno” e mais “uma arena onde outros agem sobre mim e eu preciso resistir”.