No texto a seguir, o autor apresenta uma aparente contradição no discurso da modernidade. Se o “espírito” era “moderno”, ele o era na medida em que estava determinado que a realidade deveria ser emancipada da “mão morta” de sua própria história — e isso só poderia ser feito derretendo os sólidos (isto é, por definição, dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune a seu fluxo). Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não para acabar de uma vez por todas com os sólidos e construir um admirável mundo novo livre deles para sempre, mas para limpar a área para novos e aperfeiçoados sólidos. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Nesse trecho, ele sugere que a modernidade
- A)rejeita as permanências e acaba criando um estado de fluxo contínuo sem criação de novas estruturas.
Errada, porque a modernidade em Bauman não elimina toda criação de estruturas, ela substitui estruturas antigas por novas formas de organização.
- B)define-se pela destruição das estruturas consolidadas do passado, mas acaba estabelecendo novas permanências.
Certa, pois o texto diz que a modernidade derrete os sólidos do passado, mas não para acabar com eles definitivamente, e sim para criar novos sólidos.
- C)reafirma as estruturas tradicionais ao invés de transformá-las, ao contrário do que afirmam seus ideólogos.
Errada, porque Bauman afirma o contrário: a modernidade quer transformar e romper com as tradições, não reafirmá-las.
- D)caracteriza-se pela criação de novas formas institucionais que reforçam a estabilidade social sem eliminar a tradição.
Errada, porque a modernidade líquida não reforça estabilidade social sem eliminar a tradição; ela justamente vive da dissolução e da substituição contínua.
- E)objetiva a emancipação do homem, mas acaba criando uma servidão ainda maior do que a tradicional.
Errada, porque o trecho não fala de servidão maior nem de emancipação moral do homem, mas da dinâmica de destruição e reconstrução de estruturas sociais.
Gabarito: B
Bauman usa a ideia de "modernidade líquida" para mostrar um traço central da modernidade: ela não quer manter formas fixas, mas dissolver estruturas antigas, hábitos e instituições que pareçam travar a mudança. A imagem de "derreter os sólidos" é justamente essa: desmontar o que está estabelecido para abrir espaço ao novo. Só que há uma contradição aí, bem ao estilo da modernidade: ela combate permanências, mas não vive no vazio. O que entra no lugar do velho são outras formas, novos arranjos, novas regras e novas estruturas, que também podem virar "sólidos" por um tempo. Por isso, a modernidade não significa um caos eterno sem organização, nem a vitória definitiva da fluidez. Ela funciona como uma máquina de substituir: destrói certas estruturas consolidadas, mas logo produz outras. É uma mudança contínua, porém nunca uma ausência total de forma. Bauman está criticando exatamente essa lógica de renovação permanente, que promete liberdade e novidade, mas recria dependências e padrões novos. É por isso que a alternativa B está correta. Ela capta a ideia de que a modernidade destrói os sólidos do passado, mas acaba estabelecendo novas permanências. Em outras palavras: troca-se o velho pelo novo, mas o novo também se estabiliza, pelo menos por um período. A questão cobra essa leitura fina do texto, não só a noção genérica de "mudança". Se você quiser guardar em uma frase: na modernidade, nada parece durar para sempre, mas sempre aparece alguma coisa para durar por um bom tempo. É a reforma da reforma da reforma.