[O] cenário muda radicalmente com a constatação de que os TupiGuarani eram capazes de produzir muito além dos níveis vitais. No que se refere a desenvolvimento, isso obriga a pensar nos nativos como produtores de excedentes, como produtores de riqueza – a tomá-los como base para a história [da riqueza no Brasil]. CALDEIRA, Jorge. História da riqueza no Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017. O texto refere-se à mudança de entendimento sobre aspectos econômicos dos povos indígenas brasileiros, o qual carregava valor paradigmático. O trecho acima desafia o entendimento de que
- A)os indígenas viviam em uma economia voltada para a própria subsistência por incapacidade produtiva.
Correta, porque traduz exatamente o entendimento que o texto contesta: a ideia de que os indígenas produziam apenas para sobreviver, por suposta incapacidade de gerar excedentes.
- B)a dinâmica social indígena era nômade, com migrações constantes em busca de novos recursos naturais.
Errada, porque mobilidade não é o foco do trecho e não explica o argumento sobre produção de riqueza e excedentes.
- C)os povos nativos não possuíam técnicas agrícolas avançadas que desembocam em sociedades estratificadas.
Errada, porque mistura agricultura avançada e estratificação social de modo indevido, enquanto o texto trata da capacidade produtiva e da visão sobre a economia indígena.
- D)a relação entre indígenas e colonizadores foi marcada por trocas simbólicas mais do que por intercâmbio econômico.
Errada, porque o enunciado não discute o tipo de relação com colonizadores, mas a interpretação sobre a produção econômica indígena.
- E)os Tupi-Guarani entendiam a terra como território coletivo, sem noção de propriedade individual.
Errada, porque propriedade da terra não é o ponto central da passagem e não responde ao desafio feito pelo texto.
Gabarito: A
A questão cobra uma mudança importante na antropologia econômica: sair da ideia simplista de que os povos indígenas viviam apenas no limite da sobrevivência, sem produção de excedentes. O trecho de Caldeira aponta justamente o oposto: os Tupi-Guarani conseguiam produzir mais do que o estritamente necessário para a subsistência, o que quebra um velho estereótipo muito repetido em visões coloniais e evolucionistas. Em concursos, esse ponto costuma aparecer como crítica à noção de que sociedades indígenas seriam economicamente "primitivas" ou incapazes de gerar riqueza. Na prática, muitos grupos indígenas tinham agricultura, manejo ambiental, troca e circulação de bens bem mais complexos do que a imagem de pura escassez sugere. Ou seja, não eram sociedades paradas no tempo nem presas apenas à sobrevivência mínima. Por isso, o gabarito é a alternativa A: ela é a única que afirma exatamente essa visão antiga e equivocada de uma economia voltada apenas para a subsistência por suposta incapacidade produtiva. O texto de Caldeira desafia essa leitura ao mostrar produção de excedentes, isto é, capacidade de produzir além do necessário para comer e viver no dia a dia. Vale lembrar que, na antropologia, economia não se reduz a mercado, dinheiro ou empresa. Ela envolve produção, distribuição, troca e consumo em diferentes formas de organização social. Então, quando a banca fala em riqueza indígena, ela está pedindo que você abandone o olhar eurocêntrico e reconheça que havia organização econômica real, com produção relevante e não só improviso de sobrevivência.