Leia o trecho a seguir. Certo, é verdade que a expressão “arte por arte” é vazia de sentido nas sociedades tradicionais da África negra. Toda produção artística era antes funcional, isto é, chamada a desempenhar um papel utilitário, exceto a aspiração do artista. Uma estatueta que para um europeu satisfaria o gosto por suas formas harmoniosas, um pingente que lhe serviria para sublinhar uma parte do corpo, tudo isso era destinado a cumprir uma certa função. MUNANGA, Kabengele. “A dimensão estética na arte negro-africana tradicional”. In: Arte afro-brasileira: o que é afinal? Lisboa: Oca Editorial, 2020. No Ocidente, a noção de “arte por arte” consolidou-se como uma valorização da experiência estética autônoma. Com base na perspectiva apresentada pelo autor, assinale a afirmativa correta.
- A)A ausência de uma categoria equivalente à “arte por arte” indica a inexistência de apreciação estética.
Errada, porque a ausência da categoria “arte por arte” não significa ausência de apreciação estética; significa apenas que a estética não está separada da função e do sentido social.
- B)A arte africana tradicional é ornamental, destacando-se pela valorização da forma e da harmonia estética.
Errada, porque o texto não diz que a arte africana tradicional é apenas ornamental nem que sua principal marca seja forma e harmonia estética.
- C)A concepção ocidental de arte permite uma leitura mais objetiva da dimensão estética da arte africana.
Errada, porque a leitura ocidental não é apresentada como mais objetiva, mas como limitada para entender a arte africana fora de seus próprios संदos culturais.
- D)A arte africana tradicional expressa uma cosmovisão na qual os objetos transcendem a mera apreciação visual.
Certa, porque o trecho mostra que os objetos artísticos têm sentido simbólico, ritual e social, indo além do simples prazer visual.
- E)A separação entre arte e utilidade é uma característica universal, presente em todas as culturas.
Errada, porque a separação entre arte e utilidade não é universal; isso é uma construção mais típica de certas tradições ocidentais.
Gabarito: D
A questão trabalha uma ideia central da antropologia da arte: não dá para julgar uma cultura inteira com a régua estética do Ocidente, como se toda produção artística precisasse existir para ser apenas “bonita”. No trecho, Munanga mostra que, na arte negro-africana tradicional, o objeto pode ter valor estético, mas ele não se reduz a isso. Ele também participa de ritos, relações sociais, crenças e formas de organizar a vida coletiva. Ou seja, a obra não é só um enfeite para o olhar. Uma estatueta, um pingente ou uma máscara podem ter função religiosa, política, identitária ou ritual, ao mesmo tempo em que expressam beleza, técnica e simbolismo. A grande sacada é perceber que, nessas sociedades, o objeto artístico costuma carregar uma cosmovisão, isto é, uma visão de mundo mais ampla do que a simples apreciação visual. Por isso, a alternativa D está correta: a arte africana tradicional expressa uma cosmovisão na qual os objetos transcendem a mera apreciação visual. O texto deixa claro que a função do objeto vai além da forma, alcançando utilidade, sentido social e simbólico. Em antropologia, isso é um alerta clássico contra o etnocentrismo: não transformar a experiência estética ocidental em modelo universal. As demais alternativas caem justamente nessa armadilha. A banca quer ver se você percebe que, aqui, arte não é sinônimo de “enfeite” e nem de autonomia pura. Em resumo: a beleza existe, mas vem acompanhada de função e significado, sem virar uma peça de museu isolada do mundo real.