“Antônio Bispo dos Santos (1959-2023) nasceu no Vale do Rio Berlengas (Piauí) e foi formado pelos ensinamentos de mestras e mestres de ofício do quilombo Saco-Curtume, no município de São João do Piauí; completou o ensino fundamental, tornando-se o primeiro de sua família a ter acesso à alfabetização. Nego Bispo, como também é conhecido, é uma liderança quilombola cuja militância está ancorada ao conceito de ‘contra-colonização’, o qual postula uma relação entre regimes sociopolíticos e cosmológicos.” (Adaptado de https://ea.fflch.usp.br/autor/antonio-bispo-dossantos) Por contracolonização, Nego Bispo compreende:
- A)o processo de independência político-territorial das colônias em relação às metrópoles europeias, com ênfase em um enfoque político;
Errada, porque reduz a ideia a independência político-territorial, enquanto Nego Bispo fala de uma resposta cosmológica, epistêmica e prática ao colonialismo.
- B)a crítica teórica às hierarquias de saber e poder impostas pelo colonialismo aos países periféricos, com uma abordagem centrada nas assimetrias jurídicas;
Errada, porque descreve uma crítica teórica à colonialidade, mas a contracolonização não é só análise das hierarquias de poder e direito; ela afirma modos próprios de existência.
- C)a afirmação de saberes e práticas ancestrais como autônomas, sem necessidade de validação pelo pensamento ocidental, com um enfoque epistêmico e prático;
Certa, porque expressa a autonomia dos saberes ancestrais e das práticas quilombolas, sem submissão à validação do pensamento ocidental.
- D)o questionamento às estruturas do colonialismo, como o racismo e a dependência econômica, e à colonialidade dos saberes, com uma perspectiva crítica ao eurocentrismo;
Errada, porque isso se aproxima mais da crítica à colonialidade e ao eurocentrismo em geral do que da proposta específica de contracolonização de Nego Bispo.
- E)a denúncia à dominação metropolitana direta vigente desde a colonização e a organização prática dos povos americanos na luta pela restituição plena da soberania política e territorial, com ênfase em uma análise geopolítica.
Errada, porque trata de luta anticolonial clássica por soberania territorial, mas a noção de Nego Bispo vai além da geopolítica e enfatiza saber, vida e cosmologia.
Gabarito: C
Nego Bispo usa a ideia de contracolonização para falar de uma resposta ativa dos povos quilombolas, indígenas e outros grupos tradicionais à lógica colonial. Não é só “criticar o colonizador” no plano abstrato: é afirmar modos próprios de viver, conhecer, produzir e organizar a vida, com base em memórias, ancestralidade, território e prática cotidiana. Em outras palavras, é uma postura de autonomia cultural e política ao mesmo tempo. Aqui vale a sacada: a contracolonização não pede licença ao pensamento ocidental para existir. Ela parte da experiência concreta dos povos subalternizados e valoriza seus saberes, seus modos de falar, plantar, curar, celebrar e resistir. É uma virada epistêmica e prática, porque questiona quem define o que é conhecimento legítimo. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela capta justamente a afirmação de saberes e práticas ancestrais como autônomos, sem depender de validação ocidental. Essa é a chave do pensamento de Nego Bispo: não se trata apenas de denunciar o colonialismo, mas de produzir outra orientação de mundo, outra ética e outra cosmologia. As demais alternativas ficam presas a ideias mais clássicas de anticolonialismo, colonialidade ou independência política, que são importantes, mas não resumem bem a noção de contracolonização em Nego Bispo. Ele vai além da crítica: propõe existência e conhecimento a partir do chão vivido.