Para Sherry Ortner, o principal legado da antropologia geertziana tem sido a questão de como “os símbolos modelam os modos em que os atores sociais veem, sentem e pensam sobre o mundo ou, em outras palavras, como os símbolos operam enquanto veículos de ‘cultura’”. (Adaptado de Ortner, S. B. Teoria na antropologia desde os anos 60. In: Mana, 17(2), 2011, p. 421) Para Geertz, sistemas culturais como os calendários balineses são objeto de análise antropológica para:
- A)identificar o conjunto de oposições binárias que estruturam universalmente a percepção do tempo;
Errada, porque Geertz não busca oposições binárias universais; isso lembra mais leituras estruturalistas do que a antropologia interpretativa.
- B)compreender como padrões de significados dão sentido à conduta e às relações sociais de um grupo;
Certa, pois para Geertz a análise antropológica deve interpretar os significados culturais que orientam a ação e as relações sociais.
- C)explicar como a cultura legitima ações racionais com relação a fins, como no caso da divisão do tempo balinesa, voltada para uma maior produtividade agrícola;
Errada, porque a explicação geertziana não trata a cultura como instrumento de produtividade racional, mas como rede simbólica de sentidos.
- D)demonstrar a objetividade dos fenômenos culturais, que podem ser analisados por antropólogos não pertencentes à comunidade investigada;
Errada, porque Geertz não aposta numa objetividade fria e externa; ele defende interpretação contextual e descrição densa dos significados.
- E)exemplificar a determinação biológica e a transmissão genética de estruturas culturais como a percepção do tempo entre os balineses.
Errada, porque Geertz rejeita explicações biológicas ou genéticas para os sistemas culturais, entendendo cultura como construção simbólica.
Gabarito: B
Para Clifford Geertz, a cultura não é uma lista de costumes soltos nem um código universal escondido por trás de tudo. Ela é uma teia de significados tecida pelos próprios seres humanos, e o trabalho do antropólogo é interpretar esses significados. Por isso, quando Geertz olha para algo como o calendário balinês, ele não quer descobrir uma fórmula biológica, nem provar uma regra universal do tempo. O que interessa é entender como aquele sistema simbólico organiza a vida social e dá sentido às ações do grupo. Esse é o coração da antropologia interpretativa: ler a cultura como um texto, ou melhor, como um conjunto de símbolos que orienta como as pessoas veem, sentem e agem no mundo. Assim, calendários, rituais, gestos e classificações não são “enfeites” da vida social, mas mecanismos que estruturam significados e relações. Geertz também ficou famoso pela ideia de “descrição densa”, isto é, não basta observar o fato; você precisa compreender o que ele significa naquele contexto. Por isso, a alternativa B está correta: sistemas culturais como o calendário balinês são analisados para compreender como padrões de significados dão sentido à conduta e às relações sociais de um grupo. A lógica não é explicar pela biologia, nem por eficiência econômica, nem por uma suposta objetividade neutra do observador. É interpretar o significado cultural em contexto, com atenção ao ponto de vista dos atores sociais. Em prova, sempre desconfie quando aparecer Geertz misturado com universalismo, determinismo biológico ou leitura puramente funcional e produtivista. Ele está mais para “o que isso quer dizer para esse grupo?” do que para “qual lei geral isso comprova?”.