Em seu texto Esboço de uma teoria da prática, Pierre Bourdieu escreve o seguinte: "O caráter primordial da experiência do dom é, sem dúvida, sua ambiguidade: de um lado, essa experiência é (ou pretende ser) vivida como rejeição do interesse, do cálculo egoísta, como exaltação da generosidade, do dom gratuito e sem retribuição; de outro, nunca exclui completamente a consciência da lógica da troca, nem mesmo a confissão de pulsões recalcadas ou, por éclairs, a denúncia de uma outra verdade, denegada, da troca generosa, seu caráter impositivo e custoso (‘o presente é uma infelicidade’)” (Bourdieu, 1996, p. 7). A ambiguidade da experiência que Bourdieu descreve está embasada em:
- A)Vladimir Lenin;
Errada: Lenin não é referência para a teoria antropológica da dádiva nem para a ambiguidade da troca simbólica.
- B)Marcel Mauss;
Certa: Marcel Mauss é o autor clássico sobre o dom e a reciprocidade, base da reflexão retomada por Bourdieu.
- C)Victor Turner;
Errada: Victor Turner trabalhou com ritual, liminaridade e simbolismo, mas não é a base direta dessa ideia de dom e troca.
- D)Ferdinand de Saussure;
Errada: Saussure é central para a linguística estrutural, não para a teoria antropológica da dádiva.
- E)Émile Durkheim.
Errada: Durkheim influenciou Mauss, mas a formulação específica sobre o dom e a obrigação de retribuir é de Mauss.
Gabarito: B
A questão gira em torno da teoria do dom e da troca simbólica. Pierre Bourdieu está comentando uma experiência que parece altruísta, gratuita e generosa, mas que, no fundo, carrega expectativa de retribuição, obrigação e cálculo social. Essa tensão entre dar sem parecer que se espera nada em troca, mas ao mesmo tempo operar dentro de uma lógica de reciprocidade, é justamente um tema clássico de Marcel Mauss. Mauss, em Ensaio sobre a dádiva, mostrou que o dom nunca é só um presente inocente. Em muitas sociedades, dar cria vínculo, dívida e obrigação de retribuir. Ou seja: o presente circula, mas também prende as pessoas numa rede social. Bourdieu aproveita essa ideia para mostrar que o dom é ambíguo, porque ele é vivido como generosidade, mas funciona socialmente como troca disfarçada. Por isso, o gabarito é a letra B. A base teórica está em Mauss, que estudou a dádiva como um fato social total, envolvendo economia, moral, religião e prestígio. Essa abordagem influenciou bastante a antropologia e também a leitura crítica de Bourdieu sobre práticas aparentemente desinteressadas. Se você lembrar de uma frase-chave, fica fácil: em Mauss, dar não é só dar, é criar obrigação. E Bourdieu pega essa lógica e mostra que, muitas vezes, o interesse social gosta de usar roupa de boa ação.