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Antropologia · FGV · 2025

Questão comentada de Antropologia

No trecho a seguir, Pierre Clastres apresenta uma leitura sobre a organização política das sociedades sem Estado. [O] que os selvagens [sic] nos mostram é o esforço permanente para impedir os chefes de serem chefes, é a recusa da unificação, é o trabalho de conjuração do Um, do Estado. A história dos povos que têm uma história é, diz-se, a história da luta de classes. A história dos povos sem história é, dir-se-á com ao menos tanta verdade, a história da sua luta contra o Estado. CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2003. Assinale a opção que melhor representa a concepção do autor.

Gabarito: D

Pierre Clastres ficou famoso por inverter a intuição comum: nas sociedades chamadas "sem Estado", a ausência de um aparelho central não significa atraso nem desorganização. Para ele, essas sociedades muitas vezes criam mecanismos sociais para impedir que o chefe se transforme em um poder coercitivo. Ou seja, o chefe pode existir, mas não manda como um Estado manda. Ele fala em uma "sociedade contra o Estado", expressão que resume bem essa ideia de resistência ativa à concentração do poder. No trecho citado, Clastres destaca justamente o "esforço permanente para impedir os chefes de serem chefes". Isso quer dizer que a comunidade controla, limita e esvazia qualquer tentativa de unificação do poder. Não se trata de um Estado em formação, nem de uma fase primitiva rumo ao modelo moderno. É o contrário: há uma organização política própria que bloqueia a centralização coercitiva. O Estado não é falta de evolução, mas algo deliberadamente evitado. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela traduz com precisão essa leitura: a negação do Estado ocorre por meio de estratégias coletivas que impedem a formação de um poder coercitivo. Em termos clastrianos, a sociedade não é passiva; ela atua para que o chefe continue sem virar soberano. É uma bela rasteira no "Um", como diria o texto, antes que ele se transforme em governo centralizado. Na antropologia política, Clastres é uma referência clássica quando se discute poder, chefia e sociedades sem Estado. Sua abordagem critica leituras evolucionistas e mostra que a ausência de Estado pode ser uma escolha social e política, não uma carência institucional.

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