No trecho a seguir, Pierre Clastres apresenta uma leitura sobre a organização política das sociedades sem Estado. [O] que os selvagens [sic] nos mostram é o esforço permanente para impedir os chefes de serem chefes, é a recusa da unificação, é o trabalho de conjuração do Um, do Estado. A história dos povos que têm uma história é, diz-se, a história da luta de classes. A história dos povos sem história é, dir-se-á com ao menos tanta verdade, a história da sua luta contra o Estado. CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2003. Assinale a opção que melhor representa a concepção do autor.
- A)A luta dessas sociedades é uma etapa primitiva da dialética histórica que culminará no conflito de classes moderno.
Errada, porque Clastres não vê essas sociedades como uma etapa inicial que acabará no Estado moderno ou na luta de classes marxista.
- B)A inexistência de um Estado decorre da imaturidade de suas instituições políticas, ainda em processo de formação.
Errada, porque a ausência de Estado não decorre de imaturidade política, mas de uma organização social que resiste à centralização do poder.
- C)A oposição à unificação do poder está enraizada em sistemas mitológicos que associam chefes a forças cósmicas perigosas.
Errada, porque o texto de Clastres não explica a oposição ao Estado por mitologias cósmicas, e sim por mecanismos políticos e sociais concretos.
- D)A negação do Estado se opera por meio de estratégias coletivas que bloqueiam a formação do poder coercitivo.
Certa, pois expressa a ideia de que a sociedade usa estratégias coletivas para impedir a formação de um poder coercitivo centralizado.
- E)A organização política baseia-se em lideranças consensuais, nas quais o governo existe sem hierarquia fixa.
Errada, porque Clastres não está falando de governo sem hierarquia fixa, mas de uma sociedade que impede o surgimento de um poder estatal coercitivo.
Gabarito: D
Pierre Clastres ficou famoso por inverter a intuição comum: nas sociedades chamadas "sem Estado", a ausência de um aparelho central não significa atraso nem desorganização. Para ele, essas sociedades muitas vezes criam mecanismos sociais para impedir que o chefe se transforme em um poder coercitivo. Ou seja, o chefe pode existir, mas não manda como um Estado manda. Ele fala em uma "sociedade contra o Estado", expressão que resume bem essa ideia de resistência ativa à concentração do poder. No trecho citado, Clastres destaca justamente o "esforço permanente para impedir os chefes de serem chefes". Isso quer dizer que a comunidade controla, limita e esvazia qualquer tentativa de unificação do poder. Não se trata de um Estado em formação, nem de uma fase primitiva rumo ao modelo moderno. É o contrário: há uma organização política própria que bloqueia a centralização coercitiva. O Estado não é falta de evolução, mas algo deliberadamente evitado. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela traduz com precisão essa leitura: a negação do Estado ocorre por meio de estratégias coletivas que impedem a formação de um poder coercitivo. Em termos clastrianos, a sociedade não é passiva; ela atua para que o chefe continue sem virar soberano. É uma bela rasteira no "Um", como diria o texto, antes que ele se transforme em governo centralizado. Na antropologia política, Clastres é uma referência clássica quando se discute poder, chefia e sociedades sem Estado. Sua abordagem critica leituras evolucionistas e mostra que a ausência de Estado pode ser uma escolha social e política, não uma carência institucional.