No trecho a seguir, Philippe Descola apresenta elaborações sobre a relação entre humanos e meio ambiente. Faz pouco tempo que começamos a ter a medida do preço extremamente alto que será preciso pagar pela exploração imoderada de nosso meio ambiente, com a poluição crescente do solo, do ar, da água e também dos organismos vivos, com o desaparecimento acelerado de inúmeras espécies de plantas e animais, com as consequências dramáticas do aumento do efeito estufa sobre o planeta. Em outros lugares do mundo, muitas culturas não seguiram o mesmo caminho, não isolaram a natureza como se ela fosse um domínio à parte, exterior, onde toda causa pode ser estudada cientificamente e onde tudo pode ser rentabilizado a serviço dos homens. DESCOLA, Philippe. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016. De acordo com o que é exposto no trecho, assinale a afirmativa correta.
- A)Algumas sociedades permaneceram ao lado da natureza, recusando a passagem à cultura.
Errada, porque Descola não diz que essas sociedades ficaram “ao lado da natureza”, mas que elas não a separaram da cultura como o Ocidente fez.
- B)O problema central da crise ecológica está em desconsiderar o valor da natureza para os seres humanos.
Errada, porque o texto não trata apenas de valor utilitário da natureza, e sim da forma cosmológica de concebê-la.
- C)Há modos distintos de conceber a distância essencial entre os humanos e a natureza.
Errada, porque o autor não fala em uma distância essencial universal entre humanos e natureza, mas em modos diferentes de organizar essa relação.
- D)As transformações ambientais estão enraizadas em um paradigma cosmológico determinado.
Certa, porque o trecho relaciona a crise ambiental a uma maneira específica de pensar a natureza como domínio separado e explorável.
- E)O efeito deletério intrínseco à atividade humana resulta na degradação ambiental.
Errada, porque o texto não afirma um efeito intrínseco da atividade humana, e sim critica um modelo cultural específico de exploração.
Gabarito: D
Philippe Descola está criticando uma ideia bem típica da modernidade ocidental: a de que a natureza seria um “objeto” separado da vida humana, algo que pode ser estudado, dominado e explorado sem limites. Para ele, isso não é uma regra universal. Existem sociedades que organizam de outro jeito a relação entre humanos, animais, plantas, rios, florestas e espíritos, sem transformar a natureza em um domínio externo e passivo. Na antropologia, isso aparece como uma discussão sobre cosmologias e ontologias diferentes, isto é, maneiras distintas de perceber o que existe e como os seres se relacionam. Em vez de pensar que toda humanidade vê o mundo como nós vemos, Descola mostra que há modelos variados de conexão entre pessoas e ambiente. Então, não é só uma questão de “amar a natureza” ou “preservar o meio ambiente”, mas de como cada cultura estrutura essa relação desde a base. Por isso, o item correto é o D. O trecho afirma que as transformações ambientais não surgem do nada: elas estão ligadas a um paradigma cosmológico específico, aquele que isola a natureza como esfera separada e explorável. Em outras palavras, a crise ecológica está conectada a uma forma determinada de pensar o mundo, e não a uma verdade universal sobre a relação humano-natureza. Esse tipo de leitura é bem compatível com a obra de Descola, especialmente quando ele contrapõe o naturalismo ocidental a outras formas de organização das relações entre humanos e não humanos. A banca gosta justamente desse ponto: trocar uma explicação moral simplista por uma explicação antropológica mais funda. Nada de “a humanidade sempre pensou assim” - a pegadinha está aí.