Na crença e na prática religiosa, o ethos de um grupo torna-se intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo descreve, enquanto essa visão de mundo torna-se emocionalmente convincente por ser apresentada como uma imagem de um estado de coisas verdadeiro, especialmente bem arrumado para acomodar tal tipo de vida. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2015. No trecho acima, o autor descreve a relação entre ethos coletivo e sistema religioso. Com base no texto, assinale a opção que descreve corretamente essa relação.
- A)Conflito, pois o ethos e a religião estão frequentemente em disputa, com práticas e crenças que se contradizem.
Errada, porque o trecho não fala em conflito entre ethos e religião, mas em encaixe e reforço mútuo.
- B)Confirmação recíproca, pois o ethos e a visão de mundo religiosa se validam e reforçam mutuamente.
Certa, porque o texto descreve uma validação recíproca entre o modo de vida do grupo e sua visão religiosa do mundo.
- C)A religião determina o ethos, indicando que as práticas religiosas é que moldam os valores e comportamentos.
Errada, porque o autor não afirma uma determinação unilateral da religião sobre o ethos, e sim uma relação de reforço entre ambos.
- D)O ethos racionaliza a religião, dado que o modo de vida do grupo justifica argumentativamente suas crenças religiosas.
Errada, porque inverte a lógica do trecho: não é o ethos que racionaliza a religião de forma isolada, mas a correspondência entre os dois que produz plausibilidade.
- E)A religião é ilusória e o ethos é objetivo, pois aquela oferece uma visão idealizada da prática cotidiana.
Errada, porque o texto não contrapõe religião ilusória e ethos objetivo; ao contrário, destaca que ambos se tornam mutuamente convincentes.
Gabarito: B
Clifford Geertz, ao falar de religião, mostra que ela não é só um conjunto de crenças soltas nem apenas um ritual vazio. Para ele, existe uma relação de mão dupla entre o ethos do grupo, isto é, seu estilo de vida, valores e disposições morais, e a visão de mundo religiosa, isto é, a maneira como aquele grupo interpreta a realidade. Um lado ajuda a tornar o outro convincente. No trecho, o autor diz que o ethos fica intelectualmente razoável porque parece adequado ao mundo descrito pela religião. Ao mesmo tempo, a visão de mundo ganha força emocional porque aparece como uma ordem verdadeira, bem montada para sustentar aquele modo de vida. Em outras palavras, a religião explica o mundo e, de quebra, dá charme de legitimidade ao jeito de viver do grupo. Por isso, o gabarito é a letra B. A relação é de confirmação recíproca: o ethos e a visão de mundo religiosa se validam mutuamente. Não é uma relação de causa única, como se a religião simplesmente mandasse em tudo, nem uma relação de conflito. Geertz quer mostrar justamente o encaixe simbólico entre sentido, prática e sentimento. Esse raciocínio é clássico na antropologia simbólica de Geertz, especialmente em sua ideia de religião como sistema cultural que produz sentido e plausibilidade para a vida social.