“(...) seres não-humanos que se veem sob forma humana deveriam ver os humanos sob forma não-humana, uma vez que a humanidade é uma posição e não uma substância, uma propriedade intrínseca a certa porção de seres. Um porco-do-mato, por exemplo, se vê como humano enquanto vê o humano como jaguar ou como espírito predador. Ora, todos esses existentes são, potencialmente, humanos (partilham a mesma condição de humanidade) apesar de não serem todos da espécie humana. São todos sujeitos dotados de comportamento, intencionalidade e consciência, estando inseridos em redes de parentesco e afinidade, fazendo festas, bebendo cauim, reportando-se a chefes, fazendo guerra, pintando e decorando seus corpos.” (SZTUTMAN, Renato. Natureza & Cultura, versão americanista–Um sobrevoo. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, n. 4, 2009.) Essa formulação descreve a seguinte perspectiva teórica da etnologia contemporânea:
- A)perspectivismo ameríndio.
Correta, porque o texto descreve a ideia de que diferentes seres compartilham subjetividade, mas ocupam pontos de vista distintos, que é o perspectivismo ameríndio.
- B)culturalismo histórico.
Errada, porque o culturalismo histórico trata de padrões culturais e suas trajetórias, não dessa reversão de perspectivas entre humanos e não humanos.
- C)vitalismo.
Errada, porque vitalismo se refere à valorização da vida ou de uma força vital, e não à teoria antropológica das perspectivas ameríndias.
- D)teoria-do-ator-rede.
Errada, porque a teoria do ator-rede analisa associações entre actantes humanos e não humanos, mas não propõe a lógica cosmológica descrita no enunciado.
- E)humanização dos animais.
Errada, porque o texto não fala apenas de atribuir humanidade aos animais, e sim de uma cosmologia em que vários seres podem se ver como humanos a partir de seus próprios pontos de vista.
Gabarito: A
A questão descreve uma ideia central da etnologia ameríndia contemporânea: a de que a humanidade não é um dado fixo da espécie, mas uma posição relacional. Em vez de separar radicalmente natureza e cultura como faria a visão ocidental mais comum, essa abordagem mostra que muitos seres podem se perceber como humanos e enxergar os outros a partir de sua própria perspectiva. É por isso que, no trecho, o porco-do-mato se vê como humano e vê o humano como jaguar ou espírito predador. Essa inversão de pontos de vista é a chave do chamado perspectivismo ameríndio. No perspectivismo, a forma do corpo importa, porque ela organiza o modo de perceber o mundo. Os seres partilham uma condição subjetiva, mas diferem nas aparências e nas relações que estabelecem. Por isso aparecem, no texto, elementos como parentesco, festas, cauim, guerra, pintura corporal e chefia: tudo isso mostra um mundo social ampliado, em que humanos e não humanos entram na mesma gramática de sociabilidade. A alternativa A está correta porque nomeia exatamente essa teoria, muito associada à antropologia de Eduardo Viveiros de Castro. A sacada do enunciado é justamente negar que a humanidade seja uma substância biológica exclusiva do Homo sapiens. O texto fala de humanidade como posição, isto é, como ponto de vista. É quase um convite para você parar de pensar “quem é humano?” e começar a pensar “de onde cada ser está olhando o mundo?”. As demais alternativas não servem porque falam de outras tradições teóricas: culturalismo histórico, vitalismo, teoria do ator-rede ou uma formulação genérica sobre animais. Nenhuma delas capta essa ideia de múltiplas perspectivas entre humanos e não humanos, tão típica da etnologia amazônica contemporânea.