No livro “A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos”, escrito por Bruno Latour e Steve Woolgar, os autores afirmam: “A grande diferença entre a etnografia clássica e a das ciências reside no fato de que o campo da primeira confunde-se com um território, enquanto o da segunda toma a forma de uma rede.” (LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. A vida de laboratório. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997, p.31) Essa formulação está relacionada à seguinte proposição teórico metodológica:
- A)Teoria-do-ator-rede.
Certa, porque a formulação de Latour e Woolgar remete diretamente à teoria-ator-rede, em que o campo é entendido como uma rede de relações e mediações.
- B)Estruturalismo.
Errada, porque o estruturalismo busca estruturas profundas e relações de oposição, não a ideia de rede de associações heterogêneas produzidas em laboratório.
- C)Corporeidade.
Errada, porque corporeidade trata das experiências do corpo e da materialidade vivida, o que não explica a noção de campo científico como rede.
- D)Funcionalismo.
Errada, porque o funcionalismo enfatiza a função das instituições no equilíbrio social, e não a circulação em rede de atores humanos e não humanos.
- E)Fenomenologia.
Errada, porque a fenomenologia privilegia a experiência vivida e a consciência subjetiva, não a descrição da produção de fatos científicos como rede.
Gabarito: A
A frase de Latour e Woolgar aponta para uma mudança importante no jeito de fazer etnografia quando o objeto de estudo é a ciência. Em vez de imaginar o campo como um lugar geográfico fechado, como uma aldeia, um bairro ou uma comunidade delimitada, eles mostram que a produção científica acontece em conexões espalhadas: pessoas, documentos, instrumentos, artigos, instituições e controvérsias. Ou seja, o campo vira uma rede de relações em circulação. Isso é típico da teoria-ator-rede, que entende a realidade social como algo produzido por associações entre humanos e não humanos. No laboratório, o cientista não trabalha isolado: ele se apoia em equipamentos, textos, gráficos, registros e outros mediadores. A etnografia, então, precisa seguir essas conexões, e não apenas observar um espaço físico fixo. Por isso, o gabarito é a alternativa A. A citação é praticamente uma pista direta: território de um lado, rede do outro. Latour é um dos nomes centrais da teoria-ator-rede, justamente por mostrar que os fatos científicos são construídos em cadeias de relações, e não simplesmente descobertos de forma neutra. Se você lembrar só de uma coisa, guarde esta: quando o enunciado fala em circulação, associação, mediação e rede de actantes, ele está olhando para essa abordagem. É o tipo de questão em que a banca gosta de trocar o mapa pelo labirinto.