No livro “Arte Indígena no Brasil: agência, alteridade e relação”, a antropóloga Els Lagrou afirma: “(…) a grande diferença [entre arte indígena e arte ocidental] reside na inexistência entre os povos indígenas de uma distinção entre artefato e arte, ou seja, entre objetos produzidos para serem usados e outros para serem somente contemplados, distinção esta que nem a arte conceitual chegou a questionar entre nós, por ser tão crucial à definição do próprio campo.” (LAGROU, Els. Arte indígena no Brasil: agência, alteridade e relação. Belo Horizonte: C/Arte, 2009: p.14) Assinale a opção que corresponde a princípios característicos da arte indígena descrita pela autora.
- A)Na arte indígena a autoria individual é um elemento central.
Errada, porque a autoria individual não é necessariamente o centro da arte indígena, que costuma valorizar também a tradição, a coletividade e a relação social do objeto.
- B)A definição de arte para os indígenas não está baseada na beleza.
Certa, porque a arte indígena descrita não se organiza pela ideia ocidental de beleza como critério principal, mas pela função, relação e eficácia social.
- C)A definição de arte para os indígenas está baseada na utilidade.
Errada, porque reduzir a arte indígena à utilidade é simplificar demais: ela pode ter uso, mas também dimensões rituais, simbólicas e relacionais que não cabem em mera utilidade.
- D)Na arte indígena não pode haver cópia.
Errada, porque cópia, repetição e variação de motivos podem existir sim em diferentes tradições indígenas, sem que isso descaracterize a produção.
- E)A arte indígena está limitada a produção de artefatos cerâmicos.
Errada, porque a arte indígena é muito mais ampla do que cerâmica e inclui pintura corporal, plumária, cestaria, grafismo, máscaras e outros suportes.
Gabarito: B
A ideia central da passagem de Els Lagrou é que, em muitas sociedades indígenas, não faz sentido separar rigidamente o que é “arte” do que é “objeto de uso”. Um cesto, uma cerâmica, uma pintura corporal ou uma máscara podem ser, ao mesmo tempo, coisa feita para o cotidiano, para ritual e para produzir beleza, presença e relação. Ou seja: o valor não está só em “decorar”, mas no modo como o objeto age no mundo e na vida social. Por isso, a lógica da arte indígena não deve ser lida com o filtro ocidental clássico, que costuma ligar arte à contemplação desinteressada e à beleza como fim em si. Entre muitos povos indígenas, o foco está mais na eficácia, na relação, na identidade do grupo, na memória e no uso ritual ou social do que em uma beleza abstrata e separada da vida prática. É exatamente aí que o gabarito B faz sentido: a definição de arte para os indígenas não está baseada na beleza, ao menos não no sentido ocidental de “arte pela arte”. A beleza pode existir, claro, mas ela não é o critério principal que organiza essa produção. O objeto vale pelo que faz, pelo que mobiliza e pelas relações que atualiza. Então, quando a questão contrapõe artefato e arte, ela está chamando sua atenção para uma diferença importante entre o olhar ocidental e o indígena. Em termos simples: para muitos povos indígenas, a arte não fica presa num museu imaginário de “coisas bonitas”; ela circula, funciona e participa da vida. E isso, em antropologia, é um clássico.