No texto “Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio”, Eduardo Viveiros de Castro sintetiza a proposta de seu ensaio nos seguintes termos: “O tema deste ensaio é aquele aspecto do pensamento ameríndio que manifesta sua “qualidade perspectiva”: trata-se da concepção, comum a muitos povos do continente, segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não-humanas, que o apreendem segundo pontos de vista distintos. Os pressupostos e conseqüências dessa idéia são irredutíveis ao nosso conceito corrente de relativismo, que à primeira vista parecem evocar.” (CASTRO, Eduardo Viveiros de. Os pronomes comoslógicos e o perspectivismo ameríndio. Mana, v. 2, 1996, p.115) A proposta teórica do perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro problematiza a seguinte dualidade clássica da teoria antropológica:
- A)ação e estrutura.
Errada, porque a oposição ação e estrutura pertence a outro debate da teoria social e não é o foco do perspectivismo ameríndio.
- B)objetividade e subjetividade.
Errada, porque o perspectivismo não gira em torno da oposição entre objetividade e subjetividade, mas da crítica à separação entre natureza e cultura.
- C)natureza e cultura.
Certa, porque a proposta de Viveiros de Castro questiona diretamente a dualidade clássica natureza e cultura ao atribuir perspectiva e subjetividade a humanos e não humanos.
- D)conflito e consenso.
Errada, porque conflito e consenso são categorias mais ligadas à teoria política e sociológica, não ao núcleo do perspectivismo ameríndio.
- E)etnografia e empiria.
Errada, porque etnografia e empiria dizem respeito ao método de pesquisa, e não à dualidade conceitual que o autor problematiza.
Gabarito: C
O perspectivismo ameríndio, formulado por Eduardo Viveiros de Castro, parte da ideia de que muitos povos indígenas entendem o mundo como povoado por diferentes sujeitos, humanos e não humanos, cada qual com seu próprio ponto de vista. Ou seja, não existe uma única forma neutra de ver a realidade: o jaguar, o espírito e o humano podem perceber a si mesmos como pessoas e os outros de maneira distinta. Isso bagunça de propósito uma oposição clássica da antropologia ocidental, que separa rigidamente o que é da natureza e o que é da cultura. Na tradição europeia, em geral, animais, plantas e coisas pertencem à natureza, enquanto linguagem, parentesco, crenças e vida social ficam no campo da cultura. Viveiros de Castro mostra que, em muitas cosmologias ameríndias, essa divisão não funciona do mesmo jeito. A humanidade não é uma espécie biológica privilegiada, mas uma posição perspectivística: o que muda entre os seres é o corpo e o ponto de vista, não uma essência fixa de racionalidade humana oposta à natureza. Por isso, o gabarito é a alternativa C. O perspectivismo ameríndio problematiza justamente a dualidade natureza e cultura, porque questiona a separação ocidental entre um mundo natural objetivo e uma cultura exclusivamente humana. Em vez de tratar os não humanos como objetos da natureza, o autor mostra que eles podem ser sujeitos de perspectiva, o que embaralha essa fronteira clássica. Se quiser guardar em uma frase: para Viveiros de Castro, o problema não é só "como os índios pensam os animais", mas como sua cosmologia desmonta a nossa maneira habitual de separar natureza de cultura. É aquele tipo de teoria que faz a antropologia olhar no espelho e dizer: "talvez o estranho não seja o outro, sou eu com minhas categorias".