“Para os Mamaindê, (...) todas as pessoas possuem, além de enfeites visíveis, enfeites invisíveis — colares de contas pretas, que envolvem não só o pescoço mas todo o corpo. Chamados genericamente de wasain’du (...), esses enfeites são tornados visíveis e manipulados pelos xamãs nas sessões de cura. Perdê-los equivale a perder o próprio espírito (...) O que torna esses enfeites visíveis ou invisíveis, (...), não são as características intrínsecas a eles, mas a capacidade visual do observador (...)” (SOUZA, Marcela Stockler Coelho de. A cultura invisível: conhecimento indígena e patrimônio imaterial. Anuário Antropológico, v. 35, n. 1, p. 149-174, 2010.) Neste trecho a autora problematiza a dicotomia entre
- A)ação e estrutura.
Errada, porque o trecho não discute a relação entre práticas sociais e ordem social, mas sim a forma como um objeto pode ser ao mesmo tempo visível e invisível.
- B)mito e realidade.
Errada, porque a autora não contrapõe narrativa mítica e mundo real; ela analisa a presença simultânea de dimensões materiais e imateriais em um mesmo elemento.
- C)materialidade e imaterialidade.
Certa, porque o texto mostra que os enfeites não se limitam à sua forma física e que sua visibilidade depende de uma dimensão simbólica e ritual.
- D)humano e não-humano.
Errada, porque não é o contraste entre pessoas e entidades não humanas o foco do trecho, mas sim a dupla natureza dos enfeites e sua manipulação xamânica.
- E)conflito e consenso.
Errada, porque não há debate sobre tensões sociais ou acordo coletivo; o problema levantado é conceitual e cosmológico.
Gabarito: C
A questão explora uma ideia clássica da antropologia: o que parece ser uma divisão natural entre o que é material e o que é imaterial muitas vezes é, na prática, uma separação criada pela nossa forma de olhar. No trecho, os enfeites dos Mamaindê não são apenas objetos físicos. Eles também têm uma dimensão invisível, ligada ao corpo, ao espírito e à atuação dos xamãs. Ou seja, o que é visto ou não visto depende da posição de quem observa e do modo como aquela cultura organiza o sentido das coisas. É por isso que a autora problematiza a dicotomia entre materialidade e imaterialidade. O objeto não é só um adorno palpável, e o invisível não é algo abstrato sem efeito real. Nas cosmologias indígenas, o visível e o invisível se atravessam, e o corpo, o espírito e os adornos formam uma rede de relações. A antropologia adora esse tipo de tema porque ela desconfia de oposições muito arrumadinhas, daquelas que parecem óbvias, mas não explicam a vida social de verdade. O ponto central é que a visibilidade dos enfeites não está na sua substância, mas na capacidade de percepção do observador e na mediação ritual. Isso mostra que a categoria de “material” não esgota o significado do que existe ali. Em termos antropológicos, a questão lembra autores que tratam os objetos como portadores de agência e sentido social, e não como coisas neutras. Assim, o gabarito é a letra C, porque o trecho desmonta a ideia de que o que é material está separado, de forma rígida, do que é imaterial. Na cosmologia descrita, os dois planos convivem e se interpenetram.