“A meu ver, um trabalho etnográfico só terá valor científico irrefutável se nos permitir distinguir claramente, de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor, baseadas em seu próprio bom senso e intuição psicológica. (…) É necessária a apresentação desses dados para que os leitores possam avaliar com precisão, num passar de olhos, quão familiarizado está o autor com os fatos que descreve e sob que condições obteve as informações dos nativos”. (Malinowski, Bronislaw. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Editora UBU, 2018: 57) Neste trecho da introdução do livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental, Bronislaw Malinowki apresenta
- A)uma defesa da comparação entre culturas.
Errada, porque o trecho não fala em comparação entre culturas, e sim em método etnográfico e transparência na coleta dos dados.
- B)uma defesa da observação participante.
Certa, porque Malinowski valoriza o contato direto com o campo e a observação participante como base da pesquisa etnográfica.
- C)um argumento em favor do evolucionismo cultural.
Errada, porque o texto não defende a ideia evolucionista de estágios culturais nem hierarquiza sociedades.
- D)uma defesa da antropologia de gabinete.
Errada, porque Malinowski critica a distância do pesquisador e justamente busca superar a antropologia de gabinete.
- E)um argumento em defesa da aplicação de questionários.
Errada, porque o trecho não privilegia questionários; ele privilegia observação direta, convivência e registro etnográfico detalhado.
Gabarito: B
Malinowski é um nome central da antropologia clássica porque ele mudou a forma de fazer etnografia. No trecho, ele está dizendo que o trabalho científico precisa separar com clareza o que foi observado diretamente, o que os nativos disseram e interpretaram, e o que foi inferido pelo próprio pesquisador. Isso é a cara da etnografia rigorosa: mostrar ao leitor como os dados foram obtidos, em que condições e com qual proximidade do campo. Essa preocupação faz sentido porque, para Malinowski, o antropólogo não deve estudar a sociedade à distância, como quem monta um quebra-cabeça no escritório. Ele precisa viver entre os nativos, acompanhar a vida cotidiana e participar das atividades para entender o significado das práticas. É a lógica da observação participante, que virou marca da escola funcionalista britânica. Por isso o gabarito é a letra B. O texto não está defendendo comparação entre culturas, nem evolucionismo, nem antropologia de gabinete, nem uso de questionários como técnica principal. Ao contrário: ele valoriza a experiência direta no campo, o contato prolongado e a produção de dados etnográficos confiáveis. Em termos doutrinários, é a típica defesa malinowskiana do trabalho de campo intensivo e da observação participante. Se voce guardar uma ideia só, guarde esta: Malinowski quer o antropólogo no terreno, olhando, ouvindo e convivendo, e não apenas reunindo relatos de segunda mão. É o momento em que a antropologia sai da poltrona e vai para o campo.