“Os Achuar dizem que as mulheres são mães das plantas que cultivam em suas roças; identificam-se, assim, com Nankui, criadora e “dona” destas plantas. Em suma, conceitualizam suas relações com estes seres em termos de consanguinidade. Já os homens concebem-se como cunhados dos animais de caça, traçando com eles relações de afinidade. Conclui-se, daí, que os seres que habitam o “mundo natural”, ao interagirem com os humanos, são tidos como parceiros sociais plenos.” (SZTUTMAN, Renato. Natureza & Cultura, versão americanista. Um sobrevoo, Ponto Urbe, v. 4, 2009.) De acordo com o trecho descrito, na estrutura de organização parental dos Achuar
- A)humanos e não-humanos podem ser parentes.
Correta, porque o texto mostra que plantas e animais podem ser tratados como parentes, seja por consanguinidade, seja por afinidade.
- B)apenas humanos são parentes de humanos.
Errada, porque o enunciado expande o parentesco para além dos seres humanos.
- C)apenas não-humanos são parentes de não-humanos.
Errada, porque o trecho não limita parentesco a relações entre não-humanos; ele descreve vínculos entre humanos e não-humanos.
- D)não-humanos nunca são parentes de humanos.
Errada, porque o texto afirma justamente o contrário, ao dizer que os seres do mundo natural interagem como parceiros sociais.
- E)todos os não-humanos, exceto plantas, são parentes de humanos.
Errada, porque o enunciado inclui plantas também na lógica de parentesco, não só animais.
Gabarito: A
A questão explora uma ideia central da antropologia social sobre parentesco: em algumas sociedades, parentesco não é só sangue ou casamento humano, mas uma forma de organizar relações sociais entre humanos e outros seres. No trecho sobre os Achuar, as plantas da roça são tratadas como filhas ou parentes ligados à consanguinidade, enquanto os animais de caça entram numa lógica de afinidade, como se fossem cunhados. Ou seja, o mundo natural não aparece como algo totalmente separado do mundo social, mas como parte dele. Isso é muito típico das leituras de antropologia ameríndia, em que a relação com a floresta, os animais e as plantas é pensada por categorias sociais conhecidas, como parentesco, afinidade, troca e reciprocidade. A sacada aqui é perceber que o autor está mostrando uma cosmologia em que seres não humanos podem ocupar posições relacionais equivalentes às de pessoas. Eles não são apenas recursos naturais, mas parceiros sociais plenos no modo como os humanos interagem com eles. Por isso, o gabarito é a alternativa A: humanos e não-humanos podem ser parentes. O texto afirma justamente que os Achuar concebem suas relações com plantas e animais em termos de consanguinidade e afinidade, dois eixos clássicos do parentesco. Em linguagem de prova, isso significa que a categoria de parentesco é ampliada para além da humanidade. Não há aqui uma regra jurídica, e sim uma chave interpretativa da antropologia, muito associada aos estudos de parentesco e às etnografias ameríndias. Então, se você viu no enunciado consanguinidade, afinidade e parceiros sociais plenos, pode acender a luz: a banca quer que você enxergue que o parentesco atravessa a fronteira entre humanos e não-humanos.