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furafila
$Macroeconomia

Ciclos Econômicos
e Estabilização

Por que o produto agregado oscila? Burns e Mitchell (1946) e os fatos estilizados dos ciclos. Comitês oficiais de datação (NBER, CODACE/FGV). Teorias clássicas (Juglar, Kondratieff, Schumpeter, Samuelson, Hicks). Ciclos reais de negócios (RBC) com Lucas (Nobel 1995) e Kydland-Prescott (Nobel 2004). Novo-keynesianos com Mankiw (1985) e Calvo (1983). DSGE moderno (Smets-Wouters, Christiano-Eichenbaum-Evans). Política de estabilização: estabilizadores automáticos, multiplicador assimétrico, regra de Taylor. Aplicação aos ciclos brasileiros datados pelo CODACE (1980-2026).

Aula13 / 14
DisciplinaMacroeconomia
AtualizadoAbr / 2026
Nesta aula

Sumário

Por que o produto agregado oscila ao redor da tendência de longo prazo? Por que o Brasil teve recessão profunda em 2014-2016 e expansão em 2017-2019? A teoria dos ciclos econômicos responde essas perguntas. Sete módulos cobrindo dos fatos estilizados de Burns-Mitchell aos modelos modernos de DSGE, passando por Lucas, Kydland-Prescott (RBC), os novo-keynesianos e a aplicação aos ciclos brasileiros datados pelo CODACE.

  1. Fatos estilizados dos ciclos (Burns-Mitchell 1946)
    Anatomia do ciclo: expansão, pico, recessão, vale; comovimento, persistência, assimetria; comitês de datação (NBER, CODACE)
    p. 04
  2. Teorias clássicas dos ciclos
    Juglar (1862), Kondratieff (anos 1920), Schumpeter (1939), Samuelson (1939), Hicks (1950): primeira geração de modelos
    p. 08
  3. Ciclos Reais de Negócios (RBC)
    Lucas (1972, Nobel 1995), Kydland-Prescott (1982, Nobel 2004): choques tecnológicos como fonte de ciclos, mercados completos, política sub-ótima
    p. 12
  4. Novo-keynesianos e DSGE moderno
    Mankiw (1985), Calvo (1983), Blanchard-Kiyotaki (1987), Smets-Wouters (2003), Christiano-Eichenbaum-Evans (2005)
    p. 16
  5. Política de estabilização
    Estabilizadores automáticos, regra de Taylor (1993), multiplicador fiscal assimétrico, dilemas de timing
    p. 20
  6. Crítica de Lucas e desinflação
    Lucas (1976) e a impossibilidade de previsão estável; Volcker disinflation (1979-1982); Plano Real (1994)
    p. 24
  7. Ciclos brasileiros 1980-2026 (CODACE)
    10 recessões oficiais, do 81-83 ao COVID-2020 e a recuperação 2021-2026
    p. 28
  8. Mapa mental, revisão e questões comentadas
    10 questões fechando a aula
    p. 32
Meta desta aula
Sair daqui dominando os fatos estilizados dos ciclos, conhecendo as três grandes escolas (clássica, RBC, novo-keynesiana) com seus autores e marcos seminais, aplicando regra de Taylor para política monetária, distinguindo estabilizadores automáticos de discricionários, e mapeando as 10 recessões brasileiras datadas pelo CODACE da FGV/IBRE.
Antes de começar

O que você vai aprender

01
Fatos estilizados dos ciclos

Conhecer Burns e Mitchell (NBER 1946). Anatomia do ciclo (expansão, pico, recessão, vale). Recessão técnica vs oficial NBER. Comovimento, persistência, assimetria.

02
Comitês de datação

NBER Business Cycle Dating Committee (EUA, desde 1978). CODACE/FGV-IBRE (Brasil, desde 2008). Critérios oficiais de datação.

03
Teorias clássicas

Juglar (1862), Kondratieff (1920s), Schumpeter (Business Cycles 1939), Samuelson (1939, multiplicador-acelerador), Hicks (1950).

04
RBC: Lucas e Kydland-Prescott

Lucas (1972 JET, Nobel 1995): surpresas monetárias. Kydland-Prescott (1982 Econometrica, Nobel 2004): choques tecnológicos, mercados completos.

05
Novo-keynesianos

Mankiw (1985 QJE), Calvo (1983 JME), Blanchard-Kiyotaki (1987 AER): rigidez nominal microfundamentada. Galí (1999 AER): empiria de choques tecnológicos.

06
DSGE moderno

Smets-Wouters (2003 JEEA): DSGE estimado para Zona do Euro. Christiano-Eichenbaum-Evans (2005 JPE): DSGE do Fed.

07
Política de estabilização

Estabilizadores automáticos vs discricionários. Regra de Taylor (1993). Multiplicador fiscal assimétrico (maior em recessão).

08
Ciclos brasileiros 1980-2026

10 recessões CODACE: 1981-83, 1987-88, 1989-92, 1995, 1998-99, 2001, 2003, 2008-09, 2014-16 (mais longa), 2020 (pandemia).

Dica do Fuffu

Esta é a penúltima aula da Macroeconomia. Junta tudo que você viu nas anteriores: IS-LM, AD-AS, política monetária e fiscal, expectativas, regimes cambiais. Aplica ao mundo real dos ciclos econômicos. BACEN, AFRFB, TCU e CACD cobram este tema com regularidade. Datação oficial das recessões brasileiras (CODACE/FGV) é diferencial em prova.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 01

1 Fatos estilizados dos ciclos econômicos

A definição de ciclo econômico (Burns e Mitchell, 1946)

Arthur Burns e Wesley Mitchell, em Measuring Business Cycles (NBER, 1946), formularam a definição clássica que ainda orienta a literatura:

"Os ciclos econômicos são um tipo de flutuação encontrada na atividade agregada das nações que organizam seu trabalho principalmente em empresas; um ciclo consiste em expansões ocorrendo aproximadamente ao mesmo tempo em muitas atividades econômicas, seguidas por recessões, contrações e recuperações similarmente gerais que se fundem na fase de expansão do próximo ciclo."

O artigo original do NBER cunhou os termos modernos e estabeleceu metodologia empírica para identificar e datar ciclos a partir de séries temporais de variáveis agregadas (PIB, emprego, vendas no varejo, produção industrial).

As quatro fases do ciclo

Um ciclo econômico, na descrição clássica, tem quatro fases ou pontos de inflexão:

  1. Expansão: período em que a atividade agregada cresce, geralmente acima da tendência de longo prazo. Emprego sobe, salários sobem, investimento sobe.
  2. Pico: ponto mais alto do ciclo. Atividade agregada atinge nível máximo. A partir daqui, começa a desacelerar.
  3. Recessão (também chamada contração): período em que a atividade agregada cai. Emprego diminui, salários estagnam, investimento cai.
  4. Vale: ponto mais baixo do ciclo. Atividade agregada atinge nível mínimo. A partir daqui, começa a recuperação.

O ciclo é completado quando a próxima expansão começa. Duração típica: 4 a 10 anos para o ciclo completo (varia por economia e período histórico).

Recessão técnica vs recessão oficial

Há duas definições distintas de recessão usadas na prática econômica:

  • Recessão técnica: dois trimestres consecutivos de queda do PIB real ajustado por sazonalidade. É definição simples e amplamente usada por jornalistas e analistas.
  • Recessão oficial NBER: declínio significativo na atividade econômica espalhado por toda a economia, durando mais que poucos meses, normalmente visível no PIB real, na renda real, no emprego, na produção industrial e nas vendas do atacado-varejo. Critério mais amplo, considera várias variáveis simultaneamente.

As duas definições nem sempre coincidem. Em alguns episódios, há recessão técnica sem recessão oficial (ex: EUA primeiro semestre de 2022, com PIB negativo mas emprego forte). Em outros, há recessão oficial sem dois trimestres consecutivos de PIB negativo.

Bate-papo com o Seu Teoffilo

Burns e Mitchell foram os pioneiros da economia empírica do ciclo. O NBER, instituição que eles ajudaram a fundar, ainda dita a datação oficial das recessões americanas. No Brasil, o CODACE da FGV/IBRE foi criado em 2008 inspirado no modelo NBER. Antes do CODACE, não havia datação oficial brasileira, e cada economista datava por critério próprio. Hoje, a datação CODACE é referência em concursos do BACEN, AFRFB e em qualquer análise séria do ciclo econômico brasileiro.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 01

Os 5 fatos estilizados dos ciclos

A literatura empírica de ciclos econômicos identificou um conjunto de fatos estilizados que valem em diversas economias e períodos históricos. Os principais:

  1. Comovimento: variáveis macroeconômicas tendem a oscilar juntas. PIB, emprego, consumo, investimento, importações sobem em expansão e caem em recessão. Há também variáveis pró-cíclicas (PIB), contracíclicas (taxa de desemprego) e acíclicas (taxa real de salários, em algumas estimativas).
  2. Persistência: choques têm efeitos duradouros. Uma recessão típica dura 6-18 meses; uma expansão dura 4-8 anos. O ciclo não se reverte instantaneamente.
  3. Assimetria: recessões tendem a ser mais curtas e profundas que expansões. Queda do PIB em recessão é geralmente mais rápida que a subida em expansão. Tem implicações para política contracíclica.
  4. Volatilidade relativa: nem todas as variáveis oscilam igualmente. Em ordem decrescente de volatilidade típica: investimento > consumo de duráveis > PIB > consumo de não-duráveis e serviços. Investimento varia 3-5 vezes mais que o PIB; consumo de não-duráveis varia menos.
  5. Variáveis defasadas, coincidentes e antecedentes: algumas variáveis viram ANTES do PIB (taxa de juros, índices de confiança, mercado de ações são antecedentes). Outras viram JUNTO (emprego, produção industrial são coincidentes). Outras viram DEPOIS (taxa de inflação é defasada). Esses padrões guiam previsão econômica.

Variáveis cíclicas no Brasil

Aplicando os fatos estilizados ao Brasil:

  • PIB: variável de referência. Volatilidade típica trimestral em torno de 1,5-2,5%.
  • Investimento (FBKF): 3-4 vezes mais volátil que o PIB.
  • Consumo das famílias: pró-cíclico, ligeiramente menos volátil que o PIB.
  • Emprego (PNAD Contínua): pró-cíclico, defasado em relação ao PIB (responde com 6-12 meses de atraso).
  • Taxa de desemprego: contracíclica.
  • Inflação (IPCA): tipicamente defasada, mas pode liderar em alguns episódios.
  • Taxa real de juros (Selic): contracíclica em regime de metas (BC sobe juros em expansão, baixa em recessão).
  • Cambio (R$/USD): depende do regime e do choque (em sudden stop, deprecia em recessão).

A história dos ciclos americanos

O NBER datou ciclos americanos desde a década de 1850. Resumo das maiores recessões do século XX e XXI nos EUA:

  • 1929-1933 (Grande Depressão): PIB caiu 27%, desemprego atingiu 25%. Marco histórico.
  • 1973-1975 (choque do petróleo): PIB caiu 3%, desemprego subiu para 9%.
  • 1981-1982 (Volcker disinflation): PIB caiu 2,8%, desemprego atingiu 10,8%. Custo da desinflação.
  • 2007-2009 (Grande Recessão): PIB caiu 4,3%, desemprego atingiu 10%. Crise financeira global.
  • 2020 (COVID-19): PIB caiu 3,4% no ano, mas a recessão foi muito breve (2 meses oficialmente NBER, fev-abr/2020).

Cada uma dessas recessões teve mecanismos específicos, mas todas ilustram a anatomia do ciclo econômico em escala americana.

Alerta do Examinador

Decora os 5 fatos estilizados: comovimento, persistência, assimetria, volatilidade relativa, antecedentes-coincidentes-defasadas. Investimento é a variável mais volátil; consumo de não-duráveis a menos. Emprego é defasado, juros e bolsa são antecedentes, produção industrial é coincidente. Banca cobra com pegadinha invertendo essas características.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 02

2 Teorias clássicas dos ciclos econômicos

Juglar (1862): primeira teoria sistemática

O médico e economista francês Clément Juglar, em Des Crises Commerciales et de leur Retour Périodique en France, en Angleterre et aux États-Unis (1862), foi o primeiro a sistematizar a observação de que crises comerciais têm caráter cíclico, com duração de 7 a 11 anos. O ciclo de Juglar tornou-se referência clássica.

Mecanismo proposto por Juglar: ciclos seriam causados pelo comportamento do investimento privado e do crédito. Em fase de prosperidade, otimismo gera excesso de investimento; isso gera capacidade ociosa; firmas reduzem investimento; isso provoca a recessão; eventualmente, capacidade ociosa é absorvida e novo ciclo se inicia.

Kondratieff (anos 1920): ondas longas

O economista russo Nikolai Kondratieff, nos anos 1920, formulou a tese das ondas longas (long waves). Ciclos de 50-60 anos, mais longos que os de Juglar, identificados em séries de preços e produção industrial dos séculos XVIII e XIX.

Mecanismo proposto: ondas longas seriam causadas por revoluções tecnológicas (vapor, ferrovia, eletricidade, automóvel, computadores, etc.) que gerariam onda de investimento massivo seguido de saturação.

Kondratieff foi preso pelo regime stalinista em 1930 e fuzilado em 1938. Sua tese permaneceu controvertida, mas foi resgatada por Schumpeter e por economistas evolucionários (Carlota Pérez, Christopher Freeman) na segunda metade do século XX.

Schumpeter (1939): inovação e destruição criativa

Joseph Schumpeter, em Business Cycles: A Theoretical, Historical and Statistical Analysis of the Capitalist Process (McGraw-Hill, 1939, 2 volumes), integrou as visões anteriores em uma teoria unificada baseada na inovação tecnológica.

Tese central: ciclos econômicos são causados por ondas de inovação. Empreendedores introduzem inovações (novos produtos, processos, mercados, formas de organização). Inovações geram lucros extraordinários e atraem imitadores. Lucros caem com a entrada de competidores. Inovação se difunde, eventualmente esgota seu potencial. Nova onda de inovação reinicia o ciclo.

Schumpeter identificou três escalas de ciclos sobrepostas:

  • Ciclos de Kondratieff (50-60 anos): grandes revoluções tecnológicas.
  • Ciclos de Juglar (7-11 anos): investimento e crédito.
  • Ciclos de Kitchin (3-5 anos): estoques.

O conceito de destruição criativa (Schumpeter, 1942 em Capitalism, Socialism and Democracy) é a contribuição mais conhecida: novas tecnologias destroem as antigas no processo dinâmico do capitalismo. É essa dinâmica que gera ciclos.

Dica do Fuffu

Marcas para decorar: Juglar (1862): ciclos de 7-11 anos, primeira teoria sistemática. Kondratieff (anos 1920): ondas longas de 50-60 anos. Schumpeter (1939): integra os dois com a teoria da inovação. Destruição criativa (Schumpeter, 1942): conceito central. Em concursos, banca cobra autoria, ano e tipo de ciclo.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 02

Samuelson (1939): multiplicador-acelerador

Paul Samuelson, em Interactions between the Multiplier Analysis and the Principle of Acceleration (Review of Economics and Statistics, vol. 21, n. 2, p. 75-78, 1939), formalizou um modelo simples que gera ciclos endogenamente. Combina dois conceitos:

  • Multiplicador keynesiano: aumento do consumo autônomo gera aumento do PIB em magnitude maior (1/(1-c)).
  • Princípio de aceleração: investimento depende positivamente da variação do PIB. Quando o PIB cresce mais rapidamente, investimento aumenta proporcionalmente.

A combinação gera dinâmica oscilatória: aumento do consumo autônomo → multiplicador → aumento do PIB → aumento do investimento (acelerador) → multiplicador novamente → aumento do PIB → mas com investimento dependendo da VARIAÇÃO, não do nível, do PIB, eventualmente o crescimento desacelera, investimento cai, multiplicador no sentido contrário, ciclo se reverte.

O modelo é um sistema de equações de diferenças com soluções oscilatórias (cíclicas) ou explosivas dependendo dos parâmetros. Foi importante por mostrar que ciclos podem ser gerados endogenamente em modelos macroeconômicos simples.

Hicks (1950): tetos e pisos

John Hicks, em A Contribution to the Theory of the Trade Cycle (Oxford University Press, 1950), refinou o modelo de Samuelson adicionando dois mecanismos limitadores:

  • Teto: capacidade produtiva da economia (Y_potencial). Quando o PIB efetivo se aproxima do potencial, o crescimento desacelera mecanicamente. Isso interrompe a expansão.
  • Piso: nível mínimo de investimento (não pode cair abaixo de zero, ou de algum valor mínimo de manutenção). Isso interrompe a recessão.

Com tetos e pisos, o modelo de Hicks gera ciclos persistentes (não explodem nem desaparecem). É arcabouço importante para entender por que a economia não diverge para zero ou para infinito.

Goodwin (1951): modelo predador-presa

Richard Goodwin, em The Nonlinear Accelerator and the Persistence of Business Cycles (Econometrica, vol. 19, n. 1, p. 1-17, 1951), e mais tarde no famoso A Growth Cycle (1967), apresentou modelo de oscilações não-lineares baseado em interação entre salários e lucros, similar ao modelo predador-presa de Lotka-Volterra na biologia.

Mecanismo: em expansão, emprego cresce, salários sobem, lucros caem; firmas reduzem investimento; emprego cai, salários estagnam, lucros se recuperam; novo ciclo. Modelo elegante, com ciclos endógenos não-lineares.

Friedman (1957): hipótese da renda permanente

Em outra frente, Milton Friedman, em A Theory of the Consumption Function (Princeton University Press, 1957), propôs que o consumo das famílias responde principalmente à renda permanente (média esperada de renda no longo prazo), não à renda corrente. Implicação para ciclos: choques transitórios de renda têm efeito limitado sobre consumo, reduzindo a amplitude dos ciclos. É elemento fundamental dos modelos modernos.

Pegadinha da Dotôra Soffya

Banca confunde autoria. O modelo multiplicador-acelerador foi formulado por Hicks em 1950? ERRADO. Foi por Samuelson em 1939 (RES). Hicks introduziu o conceito de destruição criativa? ERRADO. Foi Schumpeter em 1942. Kondratieff propôs ciclos de 7-11 anos? ERRADO. Esses são de Juglar (1862). Kondratieff propôs ondas LONGAS de 50-60 anos. Decora as durações: Kitchin (3-5 anos), Juglar (7-11), Kondratieff (50-60).

Prof. Affonsinho explica, Módulo 03

3 Ciclos Reais de Negócios (RBC)

Lucas (1972): ciclos por surpresas monetárias

O modelo seminal de Robert Lucas, Expectations and the Neutrality of Money (Journal of Economic Theory, vol. 4, n. 2, p. 103-124, 1972), apresentou o primeiro modelo dinâmico de ciclos com expectativas racionais e fricções de informação.

Mecanismo central: firmas operam em mercados separados. Cada firma observa apenas o preço de seu próprio produto, não o nível geral de preços em tempo real. Quando vê seu preço subir, não consegue distinguir entre:

  • Aumento geral de preços (inflação): não muda preços relativos. Resposta ótima: manter produção.
  • Aumento relativo de seu produto: aumenta sua lucratividade. Resposta ótima: aumentar produção.

Diante da incerteza, firmas usam regra estatística ótima: respondem proporcionalmente, em parte aumentando produção. Isso gera comovimento de produção entre firmas e oscilação cíclica do PIB agregado em resposta a choques nominais.

Implicação central: política monetária ANTECIPADA é neutra (incorporada nas expectativas). Apenas surpresas monetárias têm efeitos reais. Lucas, Sargent e Wallace (1975-76) desenvolveram a tese da inefetividade da política antecipada. Lucas recebeu o Nobel em 1995.

Kydland e Prescott (1982): RBC

O paradigma de Ciclos Reais de Negócios (RBC) foi inaugurado por Finn Kydland e Edward Prescott em Time to Build and Aggregate Fluctuations (Econometrica, vol. 50, n. 6, p. 1345-1370, 1982). Os dois receberam o Nobel em 2004.

Tese revolucionária: ciclos econômicos são respostas ÓTIMAS de agentes racionais a choques exógenos REAIS (tecnológicos, de produtividade), e não a fricções nominais ou desequilíbrios. Em outras palavras, o ciclo NÃO é falha de mercado; é resposta eficiente.

Estrutura do modelo:

  • Agentes representativos otimizam consumo e lazer intertemporalmente.
  • Firmas otimizam produção dado choque tecnológico estocástico.
  • Mercados são completos e perfeitamente competitivos.
  • Expectativas racionais.
  • Tempo para construir capital ("time to build"): investimento leva períodos para se materializar como capital produtivo.
  • Choques tecnológicos (TFP) são a fonte primária dos ciclos.

Resultado: o modelo simulado reproduz quantitativamente as principais características dos ciclos americanos pós-guerra. Comovimento, volatilidade relativa, persistência são todos gerados endogenamente.

Bate-papo com o Seu Teoffilo

O artigo de Kydland-Prescott (1982) é uma das contribuições mais importantes da macroeconomia moderna. Mudou completamente a forma de pensar ciclos. Antes, ciclos eram vistos como falhas (rigidez de preços, expectativas equivocadas, política equivocada). Depois, ciclos passaram a ser vistos como respostas ótimas a choques reais. Política contracíclica, nessa visão, é sub-ótima: introduz distorções desnecessárias. A tese é controvertida, mas o método (modelos calibrados, simulações quantitativas) tornou-se padrão em macroeconomia.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 03

Implicações de política do RBC

Se ciclos são respostas ótimas a choques tecnológicos, várias implicações práticas:

  1. Política monetária é neutra, mesmo no curto prazo. Aumento de M afeta apenas P.
  2. Política fiscal contracíclica é sub-ótima: introduz distorções no comportamento individual ótimo.
  3. Recessões não devem ser combatidas: são respostas eficientes a choques negativos de produtividade.
  4. Foco da política deve ser estrutural: melhorar fundamentos (qualidade institucional, P&D, infraestrutura) para elevar tendência de crescimento, não suavizar ciclos.

Essa visão contrasta fortemente com a tradição keynesiana, que vê política contracíclica como instrumento essencial de estabilização.

Críticas ao RBC

O paradigma RBC recebeu críticas substantivas:

  • Choques tecnológicos negativos são implausíveis: o que seria um "choque tecnológico negativo"? Tecnologia não regride. Galí (1999, AER) mostra que choques tecnológicos identificados empiricamente reduzem horas trabalhadas no curto prazo, contra a previsão do RBC.
  • Ignora desemprego involuntário: no RBC, todos estão "no emprego que quiserem". Não há desemprego involuntário. Implausível empiricamente.
  • Ignora mercados financeiros: a Crise de 2008 mostrou que choques financeiros (não tecnológicos) podem causar recessões profundas. RBC não capturava isso.
  • Preços e salários são empiricamente rígidos: evidência microeconômica mostra que preços e salários não ajustam continuamente. Contraria a hipótese de mercados completos do RBC.

A síntese moderna: novo-keynesianos e DSGE

A reação às críticas ao RBC foi a construção de modelos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium) com fricções nominais (rigidez de preços e salários) e fricções financeiras. Esses modelos preservam a estrutura microfundamentada do RBC mas incorporam elementos keynesianos:

  • Concorrência monopolística (firmas têm poder de mercado).
  • Custos de menu (Mankiw 1985) ou ajuste escalonado (Calvo 1983).
  • Fricções financeiras (Bernanke, Gertler, Gilchrist 1999): "financial accelerator".
  • Salários rígidos (Erceg, Henderson, Levin 2000).

O resultado é o que se chama hoje de nova síntese neoclássica-novo-keynesiana: estrutura RBC com fricções keynesianas. Política monetária tem efeitos reais no curto prazo (devido à rigidez nominal), mas é neutra no longo prazo. Política fiscal pode ser eficaz em recessões com restrição de crédito ou armadilha da liquidez.

Modelos DSGE seminais:

  • Smets e Wouters, "An Estimated Stochastic Dynamic General Equilibrium Model of the Euro Area" (Journal of the European Economic Association, vol. 1, n. 5, p. 1123-1175, 2003). Modelo de referência usado pelo BCE.
  • Christiano, Eichenbaum e Evans, "Nominal Rigidities and the Dynamic Effects of a Shock to Monetary Policy" (Journal of Political Economy, vol. 113, n. 1, p. 1-45, 2005). Modelo de referência do Fed.

Esses modelos são padrão em bancos centrais hoje para simulação de política. BACEN tem seu próprio modelo DSGE para previsão e análise.

O Raffinha confirma

Pra prova: Lucas (1972 JET): surpresas monetárias, fricções de informação. Nobel 1995. Kydland-Prescott (1982 Econometrica): RBC, choques tecnológicos, mercados completos. Nobel 2004 ambos. Smets-Wouters (2003): DSGE BCE. Christiano-Eichenbaum-Evans (2005): DSGE Fed. Decora autores, anos, veículos. Banca cobra com pegadinha invertendo as escolas.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 04

4 Novo-keynesianos e DSGE moderno

A escola novo-keynesiana

A nova economia keynesiana surgiu nos anos 1980 como resposta à revolução das expectativas racionais. Aceitou as críticas metodológicas (microfundamentação, expectativas racionais) mas restaurou as conclusões keynesianas (rigidez nominal, política eficaz, papel da demanda agregada).

Os trabalhos seminais foram coletados em:

  • N. Gregory Mankiw e David Romer (eds.), New Keynesian Economics, MIT Press (1991), 2 volumes. Coletânea fundadora.
  • Jordi Galí, Monetary Policy, Inflation, and the Business Cycle, Princeton University Press (2008). Síntese moderna.

Os pilares da rigidez nominal microfundamentada

A escola novo-keynesiana microfundamenta a rigidez nominal a partir de:

  1. Custos de menu (Mankiw 1985, QJE): pequenos custos fixos de mudar preços (reimprimir cardápio, relistar). Mostra que custos pequenos individualmente podem gerar rigidez agregada relevante.
  2. Ajuste escalonado de preços (Calvo 1983, JME): em cada período, fração 1-θ das firmas ajusta preços; restante mantém. Gera dinâmica suave da inflação. Base dos DSGEs modernos.
  3. Concorrência monopolística (Blanchard-Kiyotaki 1987, AER): firmas têm poder de mercado limitado. Articulação coerente com rigidez de preços.
  4. Salários rígidos (Erceg-Henderson-Levin 2000, JME): salários nominais ajustam de forma escalonada, similar a preços.

A curva de Phillips novo-keynesiana

Da combinação de Calvo pricing com expectativas racionais e otimização de firmas, deriva-se a curva de Phillips novo-keynesiana:

π_t = β · E[π_{t+1}] + κ · ŷ_t + ε_t

Onde π_t é a inflação corrente, β é o desconto intertemporal, E[π_{t+1}] é a inflação esperada para o próximo período, κ é a inclinação (depende dos parâmetros estruturais), ŷ_t é o hiato do produto e ε_t é um choque de oferta.

Essa equação substitui a curva de Phillips tradicional na maioria dos modelos macroeconômicos modernos. É forward-looking (inflação corrente depende da esperada futura) e oferece interpretação rica da dinâmica inflacionária.

Galí (1999): empiria de choques tecnológicos

Em Technology, Employment, and the Business Cycle: Do Technology Shocks Explain Aggregate Fluctuations? (American Economic Review, vol. 89, n. 1, p. 249-271, 1999), Jordi Galí apresentou evidência empírica que questionou um pilar do RBC.

Resultado central: choques tecnológicos positivos identificados empiricamente REDUZEM as horas trabalhadas no curto prazo (não aumentam, como prediz o RBC). Isso é consistente com modelos com rigidez nominal: melhoria de produtividade reduz necessidade de fator trabalho no curto prazo, dado que demanda agregada é determinada por outros fatores.

O artigo foi influente em motivar a transição de RBC para DSGE com fricções nominais. Galí é hoje um dos macroeconomistas mais influentes da síntese moderna.

Alerta do Examinador

A nova escola keynesiana é cobrança de prova frequente. Decora: Mankiw 1985 QJE: custos de menu. Calvo 1983 JME: ajuste escalonado, base do DSGE. Blanchard-Kiyotaki 1987 AER: concorrência monopolística. Galí 1999 AER: empiria de choques tecnológicos contra o RBC. Curva de Phillips novo-keynesiana: π = β·E[π'] + κ·ŷ + ε. Forward-looking.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 04

Smets e Wouters (2003): DSGE estimado

O artigo de Frank Smets e Raf Wouters, "An Estimated Stochastic Dynamic General Equilibrium Model of the Euro Area" (Journal of the European Economic Association, vol. 1, n. 5, p. 1123-1175, 2003), é referência fundadora dos DSGE estimados modernos.

Estrutura do modelo:

  • Famílias representativas otimizam consumo e oferta de trabalho intertemporalmente.
  • Firmas em concorrência monopolística com Calvo pricing.
  • Mercado de trabalho com salários rígidos escalonados.
  • Banco central seguindo regra de Taylor.
  • Múltiplos choques: produtividade, preferência, política monetária, etc.

O modelo é estimado por métodos bayesianos com dados da Zona do Euro. Gera previsões de PIB, inflação, taxa de juros que competem com modelos atôreoretical (VARs estimados sem teoria). Tornou-se modelo de referência do BCE para análise quantitativa.

Christiano, Eichenbaum e Evans (2005): DSGE do Fed

O artigo seminal de Lawrence Christiano, Martin Eichenbaum e Charles Evans, "Nominal Rigidities and the Dynamic Effects of a Shock to Monetary Policy" (Journal of Political Economy, vol. 113, n. 1, p. 1-45, 2005), estabeleceu o modelo DSGE de referência do Fed.

Diferenças em relação ao Smets-Wouters: maior atenção às fricções financeiras, choques específicos de política monetária, métodos de identificação por VAR estrutural. Modelo é a base do FRB-US (Fed Reserve Board model).

DSGE do BACEN

O Banco Central do Brasil tem seu próprio modelo DSGE para análise de política monetária e previsão. O SAMBA (Stochastic Analytical Model with Bayesian Approach) foi desenvolvido pelos pesquisadores do BACEN nos anos 2010 e é usado em conjunto com modelos econométricos tradicionais (PMP - Pequeno Modelo de Previsão) para informar as decisões do COPOM.

O SAMBA incorpora elementos específicos da economia brasileira:

  • Mercado de trabalho com particularidades (informalidade, indexação).
  • Setor externo importante.
  • Pass-through cambial.
  • Inércia inflacionária residual.
  • Política fiscal e regras fiscais brasileiras.

Limitações dos DSGE

Apesar do uso amplo, os DSGE têm limitações reconhecidas:

  • Crise de 2008: DSGEs disponíveis falharam em prever a crise financeira. Estimulou esforço de incorporar fricções financeiras (Bernanke-Gertler-Gilchrist, Gertler-Karadi).
  • Crítica de Lucas reaplicada: parâmetros estimados podem não ser tão estruturais quanto se assume.
  • Heterogeneidade: agentes representativos podem ocultar heterogeneidade relevante (modelos HANK - Heterogeneous Agent New Keynesian - tentam corrigir).
  • Comportamento não-otimizador: agentes reais não são perfeitamente racionais. Modelos com expectativas comportamentais são extensões em desenvolvimento.

Apesar dessas limitações, DSGE continua sendo a moldura padrão para análise quantitativa de política em bancos centrais e em pesquisa acadêmica de fronteira. É leitura recorrente em concursos avançados (BACEN, AFRFB, BNDES).

Coach Jeff manda a real

DSGE é o padrão dos bancos centrais hoje. BACEN usa o SAMBA, BCE usa Smets-Wouters, Fed usa Christiano-Eichenbaum-Evans (FRB-US). Não dá pra entender política monetária moderna sem entender o ferramental DSGE. Em concursos do BACEN, conhecer essa estrutura é diferencial. Não precisa derivar todas as equações; precisa conhecer os marcos seminais e a lógica geral.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 05

5 Política de estabilização

Política contracíclica: o porquê

Na visão keynesiana, ciclos econômicos têm custos sociais relevantes (desemprego involuntário, queda de produto, perda de capital humano por inatividade prolongada, inadimplência, falências). Política contracíclica busca reduzir a amplitude dos ciclos.

Há dois tipos principais de política contracíclica:

  1. Estabilizadores automáticos: mecanismos que operam sem decisão discricionária. Exemplos: imposto de renda progressivo, seguro-desemprego, transferências sociais.
  2. Política discricionária: decisões pontuais do governo ou banco central. Exemplos: corte da Selic em recessão, programa de obras públicas, transferências emergenciais.

Estabilizadores automáticos

Os estabilizadores automáticos atuam contra o ciclo de forma mecânica:

  • Imposto de renda progressivo: em recessão, renda das famílias cai; quem ganha mais cai para faixa de imposto menor; alíquota efetiva média cai; renda disponível cai menos que renda bruta. Em expansão, alíquotas efetivas sobem; renda disponível cresce menos que renda bruta. Suaviza ciclo.
  • Seguro-desemprego: em recessão, mais demissões; mais pessoas recebem seguro; transferência líquida ao consumidor aumenta automaticamente. Sustenta consumo.
  • Transferências sociais (Bolsa Família, BPC): elegibilidade aumenta em recessão (mais famílias caem na linha de pobreza); transferências aumentam automaticamente.
  • Imposto sobre lucro corporativo: em recessão, lucros caem; impostos sobre lucros caem proporcionalmente; déficit primário aumenta.
  • Imposto sobre importação: em recessão, importações caem; receita tributária cai.

O efeito agregado dos estabilizadores automáticos é não trivial. Estimativas para economias desenvolvidas sugerem que eles absorvem entre 20% e 40% dos choques cíclicos. Para o Brasil, estudos do IPEA estimam absorção em torno de 15-25%, menor que em países desenvolvidos pela menor abrangência do estado de bem-estar.

Política discricionária

A política discricionária requer decisão ativa do governo. Vantagens e desvantagens:

Vantagens:

  • Pode ser ajustada à magnitude e à natureza do choque.
  • Pode atuar em margens específicas (programa de habitação em recessão imobiliária).
  • Pode ter efeito grande quando bem desenhada e tempestiva.

Desvantagens:

  • Defasagens: identificação do problema (1-3 trimestres), decisão (3-6 meses), implementação (6-12 meses), efeito (1-2 anos). Total: 2-3 anos do choque ao efeito.
  • Risco de erro: política implementada quando o ciclo já virou pode ser pró-cíclica.
  • Custos políticos: corte de gastos em expansão é politicamente custoso.
  • Inconsistência temporal (Kydland-Prescott 1977): governos tendem a abusar do poder discricionário, gerando viés inflacionário ou de gastos.

Bate-papo com o Seu Teoffilo

O debate "regras vs discrição" é um dos mais antigos da macroeconomia. Friedman defendia regras (k%-rule monetária, regra de equilíbrio orçamentário). Tobin defendia discrição (uso ativo de política contracíclica). A literatura moderna (Kydland-Prescott 1977, Barro-Gordon 1983) mostrou que regras anunciadas são mais eficazes que discrição se forem críveis. Brasil moderno opera com mix: regra para política monetária (regime de metas, Selic via regra de Taylor), discrição parcial para política fiscal (arcabouço fiscal de 2023 substitui o teto de 2016).

Prof. Affonsinho explica, Módulo 05

A regra de Taylor (1993): política monetária por regra

John Taylor, em Discretion versus Policy Rules in Practice (Carnegie-Rochester Conference Series on Public Policy, vol. 39, p. 195-214, 1993), formalizou regra simples para política monetária que descreve bem o comportamento de bancos centrais modernos.

Forma original da regra de Taylor:

i_t = r* + π_t + a · (π_t - π*) + b · (Y_t - Y_n) / Y_n

Onde i_t é a taxa nominal de juros (Selic, no Brasil), r* é a taxa real neutra, π_t é a inflação corrente, π* é a meta de inflação, Y_t é o produto corrente, Y_n é o produto natural, a e b são parâmetros que refletem a função de perda do BC.

Valores de Taylor (1993): a = 1,5; b = 0,5. Para o Brasil moderno, estimativas do BACEN e da literatura sugerem a ≈ 1,5-2,0 e b ≈ 0,3-0,8. Próximo da regra original.

Implicações:

  • Quando inflação está acima da meta, BC sobe juros (política contracíclica via canal monetário).
  • Quando hiato do produto é positivo, BC sobe juros.
  • Quando inflação está acima da meta, BC sobe juros MAIS QUE PROPORCIONALMENTE (a > 1, "princípio de Taylor"). Isso garante que juros reais subam quando inflação sobe, contraindo demanda.

Multiplicador fiscal assimétrico

Pesquisa empírica recente (Auerbach-Gorodnichenko 2012, Blanchard-Leigh 2013, IMF World Economic Outlook 2012) documentou que o multiplicador fiscal não é constante: é maior em recessões que em expansões.

Estimativas:

  • Em expansão: multiplicador fiscal em torno de 0,5-0,8 (cada R$1 de gasto público gera R$0,50-0,80 adicionais de PIB).
  • Em recessão profunda: multiplicador fiscal pode ser 1,5-2,5 (cada R$1 de gasto gera R$1,50-2,50 adicionais).
  • Em armadilha da liquidez: multiplicador pode ser ainda maior (3 ou mais), pois política monetária é ineficaz e política fiscal não causa crowding-out via juros.

Essa assimetria implica recomendação prática: política fiscal expansionista é particularmente eficaz em recessões profundas. É argumento técnico para programas robustos de estímulo em crises (TARP americano 2008-2009, Auxílio Emergencial brasileiro 2020).

Trade-offs de timing

Política contracíclica enfrenta dilemas de timing:

  • Implementar cedo demais: pode amplificar choque que iria se autocorrigir.
  • Implementar tarde demais: efeito vem quando o ciclo já virou; política se torna pró-cíclica.
  • Não implementar: aceita custo cíclico, com risco de recessão prolongada e efeitos histerese (perda de capital humano por desemprego de longa duração).

O Brasil em 2014-2016 ilustrou esse dilema: política fiscal contracíclica (Lula 2009) deu certo em curto prazo (Brasil saiu rápido da crise de 2008), mas a continuação do estímulo em 2011-2014 (Dilma) gerou desequilíbrios fiscais que precipitaram a recessão de 2014-2016. A assimetria é também temporal: estímulo precisa ser desfeito quando o ciclo vira.

Pegadinha da Dotôra Soffya

Banca cobra direção do princípio de Taylor. O princípio de Taylor estabelece que a > 1, ou seja, BC sobe juros NOMINAIS proporcionalmente à inflação? ERRADO. O princípio de Taylor exige a > 1 para que juros REAIS subam quando inflação sobe. Se a = 1, juros nominais sobem proporcionalmente, mas reais ficam constantes (Δr = Δi - Δπ = 0). Se a > 1, reais sobem (contraindo demanda). É a > 1 que garante a contraciclicidade da política monetária.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 06

6 Crítica de Lucas e desinflação

A Crítica de Lucas (1976)

Robert Lucas, em Econometric Policy Evaluation: A Critique (Carnegie-Rochester Conference Series on Public Policy, vol. 1, p. 19-46, 1976), formulou uma das críticas metodológicas mais importantes da macroeconomia moderna.

Tese central: parâmetros estimados em modelos macroeconômicos tradicionais (curvas de Phillips, funções de consumo, demandas por moeda) NÃO são estruturais. Refletem o comportamento dos agentes condicionado às políticas em vigor durante a estimação. Quando o regime de política muda, o comportamento dos agentes muda, e os parâmetros antigos perdem validade preditiva.

Exemplo concreto: se o BC sempre acomodou choques inflacionários no passado, os agentes podem ter expectativas adaptativas. Se o BC adota regime de metas rigoroso, os agentes mudam para expectativas mais ancoradas. A relação inflação-desemprego (curva de Phillips) muda. Modelos econométricos estimados no regime antigo dão previsões erradas para o novo regime.

Implicações metodológicas:

  • Modelos estruturais (microfundamentados) são preferíveis a modelos reduzidos (atôreoreticos).
  • Parâmetros relevantes são preferências, tecnologia, restrições, e não relações reduzidas.
  • Avaliação de política deve ser feita em modelos onde mudança de regime é incorporada.

A Crítica de Lucas motivou a transição para modelos DSGE microfundamentados nas décadas seguintes. Lucas recebeu o Nobel em 1995, em parte pela influência metodológica dessa crítica.

A desinflação Volcker (1979-1982)

Em 1979, o Federal Reserve dos EUA estava sob nova liderança: Paul Volcker assumiu a presidência em agosto de 1979. A inflação americana estava em torno de 13% ao ano, alta histórica. Volcker decidiu enfrentar a inflação com aperto monetário severo.

A taxa de juros básica (Federal Funds Rate) foi elevada de cerca de 11% (final de 1979) para 19,1% (junho de 1981), pico histórico. A economia americana entrou em recessão dupla:

  • Recessão jan/1980 - jul/1980 (6 meses).
  • Recessão jul/1981 - nov/1982 (16 meses, a mais longa do pós-guerra até então).

O custo foi elevado: PIB caiu 2,8% no acumulado, desemprego atingiu 10,8% em dezembro de 1982 (pico desde a Depressão). Mas a inflação caiu de 13% para 4% em 1982-1983. A desinflação foi bem-sucedida.

Lições da desinflação Volcker:

  • Compromisso crível do BC pode ancorar expectativas e reduzir custo da desinflação.
  • Custo de desinflação (sacrifice ratio) depende da credibilidade.
  • Política monetária independente é fundamental para combate à inflação.
  • Após Volcker, o Fed manteve disciplina monetária. EUA tiveram inflação baixa e estável por 4 décadas.

O Raffinha confirma

Pra prova: Lucas (1976): parâmetros não estruturais, mudança de regime invalida previsão. Motivou DSGE. Volcker disinflation (1979-1982): Fed sob Paul Volcker; Fed Funds 11% para 19%; recessão dupla com desemprego 10,8%; inflação caiu 13% para 4%. Marco do combate moderno à inflação.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 06

A inflação inercial brasileira (anos 1980-1994)

O Brasil dos anos 1980 e início dos 1990 viveu período de inflação altíssima, atingindo níveis hiperinflacionários em 1989-1990 (mais de 80% ao mês). A inflação tinha característica peculiar: era largamente inercial, alimentada por mecanismos de indexação (correção monetária) que fixavam expectativas sobre o passado.

A teoria da inflação inercial brasileira foi desenvolvida nos anos 1980 por:

  • Luiz Carlos Bresser-Pereira e Yoshiaki Nakano (1985): "Fatores Aceleradores, Mantenedores e Sancionadores da Inflação". Distinção entre fatores aceleradores (choques) e mantenedores (indexação).
  • Francisco Lopes (1986): O Choque Heterodoxo. Tese de que desindexação requer ato discricionário coordenado.
  • Pérsio Arida e André Lara Resende (1984): texto interno PUC-Rio. Proposta intelectual da URV (Unidade Real de Valor).

Os planos heterodoxos de 1986-1991 (Cruzado, Bresser, Verão, Collor I, Collor II) tentaram quebrar a inércia via congelamento de preços. Todos falharam após poucos meses, com retorno acelerado da inflação.

O Plano Real (1994): combinação heterodoxa-ortodoxa

Em julho de 1994, o ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, lançou o Plano Real. A estratégia teve duas fases:

  1. Fase 1 (mar-jun 1994): URV. Introdução da Unidade Real de Valor, indexador único e diário, vinculado ao dólar. Salários, contratos, preços convertidos em URV. URV servia como moeda de conta (não de troca). Quando todos os preços relativos se estabilizaram em URV, a moeda nova (real) substituiu a URV em 1º julho.
  2. Fase 2 (jul 1994 em diante): Real e âncora cambial. Real introduzido com paridade R$1,00 = US$1,00 (depois banda deslizante). Âncora cambial conteve inflação. Inflação caiu de 50% ao mês (jun/1994) para 3% ao mês (jul/1994), e estabilizou em 1-2% ao mês ao longo de 1995.

Características distintivas do Plano Real:

  • Heterodoxa: URV como mecanismo de coordenação para quebrar inércia.
  • Ortodoxa: âncora cambial, austeridade fiscal, juros altos.
  • Combinação inteligente: usou cada elemento na fase apropriada.

O Plano Real é considerado um dos planos de estabilização mais bem-sucedidos da história econômica do século XX. Inflação caiu de 50%/mês para abaixo de 10%/ano em poucos anos. Após 1999, o regime evoluiu para o tripé macroeconômico moderno (cambio flutuante + metas de inflação + responsabilidade fiscal).

A consolidação institucional pós-Plano Real

Após o Plano Real, o Brasil consolidou arcabouço institucional moderno:

  • Decreto 3.088/1999: institui o regime de metas de inflação.
  • Lei 4.595/1964 e atualizações: estrutura do SFN.
  • LC 101/2000 (LRF): responsabilidade fiscal.
  • Lei 10.192/2001: proibição de reajustes salariais retroativos automáticos.
  • LC 179/2021: autonomia formal do BACEN.
  • EC 132/2023 e LC 214/2025: reforma tributária.
  • LC 200/2023: Arcabouço Fiscal (substitui o Teto de Gastos de 2016).

Essa consolidação institucional é parte do que sustentou a estabilidade macroeconômica brasileira nas últimas três décadas, mesmo diante de choques sucessivos.

Alerta do Examinador

Marcos do Plano Real para decorar: jul/1994: lançamento, FHC ministro da Fazenda do governo Itamar. URV (mar-jun 1994): Arida e Resende (1984), Lopes (1986), Bresser e Nakano (1985) - inflação inercial. 1999: tripé macroeconômico (cambio flutuante + metas + LRF). Banca confunde autoria do Plano Real com FHC presidente (que foi de 1995-2002, depois de ser ministro).

Prof. Affonsinho explica, Módulo 07

7 Ciclos brasileiros 1980-2026 (CODACE/FGV)

O CODACE e a datação oficial

O CODACE - Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV/IBRE foi criado em 2008, inspirado no NBER Business Cycle Dating Committee dos EUA. É composto por economistas brasileiros (Paulo Picchetti, Edmar Bacha, Affonso Celso Pastore, entre outros). Datação oficial das recessões brasileiras e referência metodológica.

Critérios de datação CODACE: declínio significativo, persistente e disseminado da atividade econômica, considerando PIB, indústria, vendas no varejo, ocupação. Análise multivariada, não simples regra de "dois trimestres consecutivos de PIB negativo".

O CODACE divulga periodicamente as datações oficiais. As 10 recessões datadas até 2024:

Recessões brasileiras 1981-2010

  • 1981 T1 - 1983 T1 (8 trimestres): maior recessão do período militar. Crise da dívida externa latino-americana (México defaultou em ago/1982). PIB caiu 2,8%; inflação acima de 100%/ano. Choque externo + política fiscal restritiva. Foi muito longa e dura.
  • 1987 T3 - 1988 T4 (5 trimestres): pós-Plano Cruzado. Inflação rebound após congelamento. Pequena recessão.
  • 1989 T3 - 1992 T1 (10 trimestres): a mais longa após 1981-83. Crise do Plano Collor (mar/1990, confisco de poupança), recessão profunda. PIB caiu 4,3% no acumulado.
  • 1995 T1 - 1995 T3 (3 trimestres): choque pós-Plano Real, com cambio sobrevalorizado. Curta recessão técnica, atividade se recuperou rápido.
  • 1998 T1 - 1999 T1 (5 trimestres): crise asiática + russa + cambial brasileira. Selic foi a 49%. Cambio quebrou em jan/1999.
  • 2001 T2 - 2001 T4 (3 trimestres): apagão energético + crise argentina + 11/setembro nos EUA. Choque externo combinado.
  • 2003 T1 - 2003 T2 (2 trimestres): ajuste fiscal e monetário do início Lula (Selic 26,5%, ajuste fiscal severo). Curta recessão técnica antes da bonança 2003-2010.
  • 2008 T4 - 2009 T1 (2 trimestres): crise global de 2008. Brasil entrou em recessão técnica curta. Reagiu com forte estímulo (Selic foi a 8,75%, programa de gastos, estatais usadas como instrumento). Saiu rápido em 2009-2010 (PIB 7,5% em 2010).

A bonança 2003-2014

Entre 2003 e 2014, o Brasil teve período de forte expansão. Combinação favorável:

  • Bonança de commodities (China + reflação global).
  • Tripé macroeconômico funcionando.
  • Reformas estruturais aprovadas (previdência rural, Lei de Recuperação Judicial).
  • Programas sociais ampliados (Bolsa Família).
  • Investimento elevado (Petrobras pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíadas).

Crescimento médio do PIB foi de 4% ao ano, com pico de 7,5% em 2010. Inflação dentro da meta. Cambio apreciado (R$1,55-2,00 por USD). Reservas internacionais cresceram de US$50 bi para US$378 bi (2012).

A partir de 2011, sob o governo Dilma, foi implementada a chamada "Nova Matriz Econômica": redução agressiva de Selic, controle de preços administrados (gasolina, energia), expansão do BNDES, desonerações tributárias setoriais. A combinação gerou desequilíbrios que se acumularam até 2014.

O Raffinha confirma

Pra prova: CODACE/FGV-IBRE (2008): comitê oficial de datação brasileiro. 10 recessões oficiais entre 1981 e 2020. As mais longas: 1989-1992 (10 trim, pós-Collor) e 2014-2016 (11 trim, recessão Dilma). As mais curtas: 2008-2009 (2 trim, crise global) e 2020 (2 trim, pandemia). Decora os marcos.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 07

A recessão 2014-2016 (a mais longa)

A recessão de 2014-2016 foi a mais longa da série datada pelo CODACE: 11 trimestres consecutivos de queda do PIB (2014 T2 - 2016 T4). Acumulado de queda do PIB foi de cerca de 7%, comparável apenas à recessão 1981-1983.

Causas combinadas:

  • Reversão da bonança de commodities: queda de preços de commodities desde 2014.
  • Desequilíbrios fiscais acumulados: déficit primário em 2014 (após anos de superávit), dívida pública em rota de alta.
  • Expectativas desancoradas: inflação projetada subiu acima da meta.
  • Crise política: Operação Lava-Jato a partir de 2014, impeachment de Dilma em 2016.
  • Aperto monetário tardio: Selic foi para 14,25% em julho/2015, mas tarde demais para evitar desancoragem.
  • Crise energética: redução do nível de reservatórios + reajuste de preços administrados represados.

Resultados em números:

  • PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016 (6,9% acumulado).
  • IPCA atingiu 10,7% em 2015 (estouro da meta superior).
  • Desemprego subiu de 6,5% (2014) para 13,7% (2017).
  • Investimento (FBKF) caiu 25% em termos reais.
  • Cambio depreciou para R$4,20/USD em 2016.

A recuperação lenta (2017-2019)

A partir de 2017, com novo governo (Temer) e equipe econômica de recomposição (Henrique Meirelles MF, Ilan Goldfajn BC), o Brasil iniciou recuperação. Reformas estruturais foram aprovadas:

  • Teto de Gastos (EC 95/2016).
  • Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017).
  • Lei das Estatais (Lei 13.303/2016).

Crescimento do PIB foi modesto: 1,3% em 2017, 1,8% em 2018, 1,2% em 2019. Inflação retornou à meta. Cambio se estabilizou em R$3,30-4,30/USD.

A recessão 2020 (pandemia, mais curta)

Em 2020, a pandemia de covid-19 gerou a recessão mais curta da série brasileira: 2 trimestres (T1 e T2 de 2020). Mas a magnitude do choque foi enorme: PIB caiu 9,7% no segundo trimestre (anualizado), maior queda trimestral da história.

Resposta de política foi massiva e rápida:

  • Selic foi reduzida de 4,25% para 2,00% (mínima histórica) em alguns meses.
  • Auxílio Emergencial: R$600 mensais para milhões de brasileiros, somando cerca de 8% do PIB em 2020.
  • BNDES e bancos públicos expandiram crédito.
  • Linhas de auxílio para empresas (Pronampe, FGI).

O resultado foi recuperação muito rápida. PIB cresceu 5,0% em 2021, 2,9% em 2022, 2,9% em 2023. Mas a expansão monetária e fiscal alimentou o ciclo inflacionário 2021-2022 (IPCA atingiu 12% em 2022), que demandou aperto monetário recorde 2021-2023 (Selic foi a 13,75%).

2024-2026: ajuste e perspectivas

Em 2024-2026, Brasil opera em fase de ajuste pós-aperto:

  • Selic em torno de 11-12% (cortes graduais a partir de ago/2023).
  • IPCA próximo da meta (4,5% banda superior).
  • Cambio estável em R$4,80-5,30/USD.
  • PIB crescendo em torno de 1,5-2,5% (próximo do potencial).
  • Reformas em implementação (Reforma Tributária da EC 132/2023, Arcabouço Fiscal da LC 200/2023).
  • Próxima Aula 14 cobrirá o tema de Desenvolvimento Econômico, fechando a série.

Dica do Fuffu

Os ciclos brasileiros são parte essencial da história econômica recente. Decora as 10 recessões do CODACE, com destaque para 1981-83, 1989-92, 2014-16 (a mais longa, 11 trim) e 2020 (a mais curta mas intensa). Próxima aula: Desenvolvimento Econômico, indicadores, desigualdade e pobreza. Fim da série Macroeconomia em vista.

Mapa mental

Doze ramos para fixar o esqueleto da aula. Reler antes de qualquer prova.

Ciclos Econômicos e Estabilização

Fatos estilizados

  • Burns e Mitchell (NBER 1946)
  • Comovimento, persistência, assimetria
  • Volatilidade: I > Cd > Y > Cnd
  • Variáveis antecedentes, coincidentes, defasadas

Comitês de datação

  • NBER (EUA, desde 1978)
  • CODACE/FGV-IBRE (Brasil, desde 2008)
  • Recessão técnica vs oficial
  • Critérios multivariados

Teorias clássicas

  • Juglar (1862): 7-11 anos
  • Kondratieff (1920s): ondas longas 50-60 anos
  • Schumpeter (1939): inovação + destruição criativa
  • Samuelson (1939): multiplicador-acelerador
  • Hicks (1950): tetos e pisos

RBC: Lucas e Kydland-Prescott

  • Lucas (1972 JET): surpresas monetárias. Nobel 1995
  • Kydland-Prescott (1982 Econometrica). Nobel 2004
  • Choques tecnológicos como fonte primária
  • Mercados completos, política sub-ótima

Novo-keynesianos

  • Mankiw (1985 QJE): custos de menu
  • Calvo (1983 JME): ajuste escalonado
  • Blanchard-Kiyotaki (1987 AER)
  • Galí (1999 AER): empiria contra RBC
  • Curva Phillips NK: π = β·E[π'] + κ·ŷ + ε

DSGE moderno

  • Smets-Wouters (2003 JEEA): BCE
  • Christiano-Eichenbaum-Evans (2005 JPE): Fed
  • SAMBA: BACEN
  • Modelo de referência dos BCs

Estabilizadores automáticos

  • Imposto de renda progressivo
  • Seguro-desemprego
  • Transferências sociais (Bolsa, BPC)
  • Imposto sobre lucros
  • Absorvem 15-25% dos choques no Brasil

Política discricionária

  • Defasagens longas (2-3 anos)
  • Risco de erro de timing
  • Inconsistência temporal (Kydland-Prescott 1977)
  • Multiplicador maior em recessão

Regra de Taylor (1993)

  • i = r* + π + a(π - π*) + b·hiato
  • Original: a = 1,5; b = 0,5
  • Princípio de Taylor: a > 1
  • Brasil: a ~ 1,5-2,0; b ~ 0,3-0,8

Crítica de Lucas (1976)

  • Parâmetros não estruturais
  • Mudança de regime invalida previsão
  • Motivou DSGE microfundamentado
  • Lucas Nobel 1995

Desinflação

  • Volcker (1979-82): Fed Funds 19%, recessão dupla
  • Inflação caiu de 13% para 4%
  • Plano Real (1994): URV + âncora cambial
  • Bresser-Nakano, Lopes, Arida-Resende

Recessões brasileiras (CODACE)

  • 1981-83 (8 trim, dura)
  • 1989-92 (10 trim, pós-Collor)
  • 2008-09 (2 trim, crise global)
  • 2014-16 (11 trim, mais longa)
  • 2020 (2 trim, pandemia)

Revisão relâmpago

Se você tem 5 minutos antes da prova, leia só isto.

  1. Burns e Mitchell (NBER 1946): definição clássica de ciclos. Quatro fases: expansão, pico, recessão, vale.
  2. Recessão técnica: 2 trimestres consecutivos de PIB negativo. Recessão oficial NBER: declínio significativo, persistente, disseminado.
  3. 5 fatos estilizados: comovimento, persistência, assimetria, volatilidade relativa (I > Cd > Y > Cnd), antecedentes-coincidentes-defasadas.
  4. Comitês de datação: NBER (EUA, desde 1978), CODACE/FGV-IBRE (Brasil, desde 2008).
  5. Juglar (1862): ciclos de 7-11 anos. Kondratieff (1920s): ondas longas de 50-60 anos. Kitchin: 3-5 anos (estoques).
  6. Schumpeter (1939): ciclos por inovação. Destruição criativa (Schumpeter, 1942).
  7. Samuelson (1939, RES): modelo multiplicador-acelerador. Hicks (1950): tetos e pisos.
  8. Lucas (1972 JET): ciclos por surpresas monetárias com fricções de informação. Nobel 1995.
  9. Kydland-Prescott (1982 Econometrica): RBC. Choques tecnológicos como fonte primária. Mercados completos. Nobel 2004 ambos.
  10. Mankiw (1985 QJE): custos de menu. Calvo (1983 JME): ajuste escalonado, base do DSGE.
  11. Galí (1999 AER): empiria de choques tecnológicos contra o RBC.
  12. Curva de Phillips NK: π = β·E[π'] + κ·ŷ + ε. Forward-looking.
  13. Smets-Wouters (2003 JEEA): DSGE BCE. Christiano-Eichenbaum-Evans (2005 JPE): DSGE Fed. SAMBA: BACEN.
  14. Estabilizadores automáticos: IR progressivo, seguro-desemprego, transferências sociais. Absorvem 15-25% dos choques no Brasil.
  15. Regra de Taylor (1993): i = r* + π + a(π - π*) + b·hiato. Original: a = 1,5; b = 0,5. Princípio de Taylor: a > 1.
  16. Multiplicador fiscal: maior em recessão (~1,5-2,5) que em expansão (~0,5-0,8). Máximo em armadilha da liquidez.
  17. Crítica de Lucas (1976): parâmetros não estruturais. Mudança de regime invalida previsão. Motivou DSGE.
  18. Volcker disinflation (1979-82): Fed Funds 11% para 19%; recessão dupla, desemprego 10,8%; inflação caiu 13% para 4%.
  19. Plano Real (jul/1994): FHC ministro. URV (Arida-Resende, Lopes, Bresser-Nakano) + âncora cambial. Inflação caiu 50%/mês para abaixo de 10%/ano.
  20. 10 recessões brasileiras CODACE: 1981-83, 1987-88, 1989-92 (10 trim), 1995, 1998-99, 2001, 2003, 2008-09, 2014-16 (11 trim, mais longa), 2020 (pandemia, 2 trim).
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Vinte pontos densos, dos fatos estilizados de Burns-Mitchell aos DSGEs modernos e ao histórico brasileiro. Decora autores, anos, veículos e a sequência das recessões CODACE. Bora para as questões.

? 10 questões comentadas

As dez questões a seguir foram elaboradas para cobrir o essencial desta aula. Cada uma vem com gabarito e comentário detalhado do Prof. Affonsinho, alternativa por alternativa, seguido de uma tese central que sintetiza o ponto cobrado.

Sugestão de uso:

  1. Leia cada questão sem olhar o gabarito.
  2. Marque sua resposta num papel.
  3. Só depois, confira o gabarito e leia o comentário.
  4. Se errou, marque em um caderno qual conceito ou autor falhou, e volte ao módulo correspondente.

A vilã da aula: Blogueirinha Concurseira

A Blogueirinha Concurseira vende macetes virais que a banca adora reprovar. Em ciclos econômicos, ela posta vídeo de "previsões fáceis" sobre quando vai vir a próxima recessão, mas confunde Juglar com Kondratieff, troca Lucas com Kydland-Prescott, e ainda inverte recessão técnica com recessão oficial NBER. Em pegadinhas que cobram autoria, ano e datação CODACE, ela cai todo. Você é melhor que isso: domina autores e anos com precisão, distingue as três escolas (clássica, RBC, novo-keynesiana), e mapeia as 10 recessões brasileiras com datação oficial.

Q1

Questão 01 · Comentada

Enunciado. Sobre a definição clássica de ciclo econômico de Burns e Mitchell (NBER, 1946) e a anatomia do ciclo, é correto afirmar:

  1. A) O ciclo econômico tem cinco fases: expansão, pico, platô, recessão e vale.
  2. B) O ciclo econômico tem quatro fases: expansão, pico, recessão (ou contração) e vale.
  3. C) Burns e Mitchell propuseram que ciclos econômicos não existem e são apenas ruído estatístico.
  4. D) O ciclo econômico só existe em economias com regime cambial flutuante.
  5. E) Burns e Mitchell foram defensores do RBC nos anos 1940.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento da anatomia clássica do ciclo. Cobrança recorrente.

  • A errada: Não há fase de "platô" na anatomia clássica de Burns-Mitchell. Quatro fases apenas.
  • B CORRETA: Definição clássica: 4 fases - expansão, pico, recessão (ou contração), vale. Burns-Mitchell (NBER 1946).
  • C errada: Justamente o oposto: estabeleceram a metodologia para identificar ciclos.
  • D errada: Ciclos existem em qualquer regime cambial. Não há essa restrição.
  • E errada: RBC é dos anos 1980 (Kydland-Prescott 1982). Burns-Mitchell foram pioneiros empíricos, não teóricos do RBC.

Tese central: Burns e Mitchell (NBER 1946): definição clássica do ciclo, 4 fases (expansão, pico, recessão, vale). Pioneiros da economia empírica do ciclo.

Q2

Questão 02 · Comentada

Enunciado. A datação oficial das recessões brasileiras é responsabilidade do:

  1. A) Banco Central do Brasil (BACEN).
  2. B) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
  3. C) Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), criado em 2008.
  4. D) Tesouro Nacional.
  5. E) Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Gabarito: C

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento da institucionalidade brasileira de datação cíclica. Cobrança específica em concursos do BACEN, AFRFB, BNDES.

  • A errada: BACEN compila estatísticas mas não data ciclos oficialmente.
  • B errada: IBGE produz o PIB mas não data recessões.
  • C CORRETA: CODACE da FGV/IBRE, criado em 2008, é o comitê oficial de datação. Inspirado no NBER. Composto por economistas como Picchetti, Bacha, Pastore.
  • D errada: Tesouro Nacional cuida da dívida pública, não data ciclos.
  • E errada: IPEA produz pesquisa mas não tem mandato de datar ciclos oficialmente.

Tese central: CODACE (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV/IBRE), criado em 2008, é o órgão oficial de datação de recessões brasileiras. Inspirado no NBER Business Cycle Dating Committee dos EUA.

Q3

Questão 03 · Comentada

Enunciado. Sobre os fatos estilizados dos ciclos econômicos identificados na literatura empírica, é correto afirmar:

  1. A) O consumo de bens não-duráveis é tipicamente mais volátil que o investimento agregado.
  2. B) O investimento agregado é tipicamente 3-5 vezes mais volátil que o PIB.
  3. C) A taxa de desemprego é uma variável pró-cíclica.
  4. D) A produção industrial é variável defasada em relação ao PIB.
  5. E) A taxa real de juros é tipicamente acíclica.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento dos fatos estilizados sobre volatilidade relativa e padrões cíclicos.

  • A errada: Inverso: investimento é mais volátil que consumo de não-duráveis. Ordem típica: I > Cd > Y > Cnd.
  • B CORRETA: Investimento (FBKF) é tipicamente 3-5 vezes mais volátil que o PIB. Fato estilizado robusto.
  • C errada: Taxa de desemprego é CONTRACÍCLICA: sobe em recessão, cai em expansão. Pró-cíclica seria o emprego (nível).
  • D errada: Produção industrial é COINCIDENTE (vira junto com PIB), não defasada.
  • E errada: Taxa real de juros é tipicamente CONTRACÍCLICA em regime de metas (BC sobe em expansão, baixa em recessão). Não é acíclica.

Tese central: Fatos estilizados de volatilidade: I (3-5x PIB) > Cd > Y > Cnd. Variáveis: emprego (pró-cíclico, defasado), desemprego (contracíclico), produção industrial (coincidente), juros e bolsa (antecedentes), inflação (defasada).

Q4

Questão 04 · Comentada

Enunciado. O modelo de Ciclos Reais de Negócios (RBC), desenvolvido por Finn Kydland e Edward Prescott em 1982 (Econometrica), tem como característica central:

  1. A) Ciclos econômicos são causados primariamente por fricções nominais (rigidez de preços e salários) que impedem ajuste ótimo dos mercados.
  2. B) Ciclos econômicos são respostas ótimas de agentes racionais a choques exógenos REAIS (especialmente tecnológicos), em mercados completos com expectativas racionais.
  3. C) Ciclos econômicos resultam de erros sistemáticos de política monetária do Banco Central.
  4. D) Ciclos econômicos não existem em economias modernas com instituições adequadas.
  5. E) Política contracíclica é altamente recomendável no arcabouço RBC.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento da tese central do RBC. Kydland-Prescott (1982) e Nobel de 2004.

  • A errada: Esta é a visão novo-keynesiana, NÃO o RBC. RBC supõe mercados completos sem fricções nominais.
  • B CORRETA: Tese central do RBC: ciclos são respostas ótimas a choques tecnológicos (TFP). Mercados completos, expectativas racionais, otimização individual. Política contracíclica é sub-ótima.
  • C errada: Não é a tese do RBC. Esta seria mais próxima de uma visão monetarista pura.
  • D errada: RBC reconhece existência dos ciclos. Argumenta que são ÓTIMOS, não que não existem.
  • E errada: Justamente o oposto: RBC argumenta que política contracíclica é sub-ótima, pois desvia do equilíbrio eficiente.

Tese central: RBC (Kydland-Prescott 1982 Econometrica, Nobel 2004): ciclos são RESPOSTAS ÓTIMAS a choques tecnológicos REAIS, em mercados completos com expectativas racionais. Política contracíclica é sub-ótima nessa visão. Tese controvertida mas metodologicamente influente (DSGE veio dessa tradição).

Q5

Questão 05 · Comentada

Enunciado. A regra de Taylor, formalizada por John Taylor em 1993 (Carnegie-Rochester Conference Series), descreve a função de reação de bancos centrais em regime de metas de inflação. O "princípio de Taylor" estabelece que:

  1. A) O coeficiente sobre o desvio de inflação (a) deve ser igual a 1, para que juros nominais reajam proporcionalmente à inflação.
  2. B) O coeficiente sobre o desvio de inflação (a) deve ser maior que 1, para que juros REAIS subam quando inflação sobe acima da meta, contraindo a demanda agregada.
  3. C) O coeficiente sobre o hiato do produto (b) deve ser igual a zero, para evitar que política monetária responda a flutuações cíclicas.
  4. D) A regra deve ser aplicada apenas em períodos de inflação alta.
  5. E) A taxa real neutra (r*) deve ser igual à inflação meta (π*).

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento do princípio de Taylor. Cobrança recorrente em provas avançadas.

  • A errada: Se a = 1, juros REAIS ficam constantes quando inflação muda (Δr = Δi - Δπ = 0). Política monetária seria neutra. Insuficiente.
  • B CORRETA: Princípio de Taylor: a > 1 garante que juros REAIS subam quando inflação sobe acima da meta. Necessário para política monetária ser efetivamente contracíclica. Original Taylor: a = 1,5.
  • C errada: Não é o princípio de Taylor. Original tem b = 0,5 (positivo).
  • D errada: A regra é aplicável em qualquer período. Não há essa restrição.
  • E errada: São conceitos distintos: r* é a taxa real neutra; π* é a meta de inflação. Não precisam ser iguais.

Tese central: Princípio de Taylor: a > 1 (coeficiente sobre desvio de inflação maior que 1). Garante que juros REAIS subam quando inflação sobe, contraindo demanda. Original Taylor (1993): a = 1,5; b = 0,5. Brasil: estimativas próximas.

Q6

Questão 06 · Comentada

Enunciado. Sobre os estabilizadores automáticos da política fiscal, é correto afirmar:

  1. A) São mecanismos discricionários, ativados por decisão do governo em cada momento do ciclo econômico.
  2. B) Operam de forma automática, sem necessidade de decisão discricionária; exemplos típicos incluem imposto de renda progressivo, seguro-desemprego e transferências sociais. Suavizam o ciclo econômico ao alterar automaticamente o saldo fiscal e a renda disponível das famílias em resposta às oscilações da atividade.
  3. C) Estabilizadores automáticos só existem em economias com câmbio fixo.
  4. D) Estabilizadores automáticos amplificam os ciclos econômicos.
  5. E) No Brasil, os estabilizadores automáticos absorvem mais de 60% dos choques cíclicos.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento sobre estabilizadores automáticos vs discricionários.

  • A errada: Justamente o oposto. Discricionários requerem decisão; automáticos não.
  • B CORRETA: Definição precisa. IR progressivo, seguro-desemprego, transferências (Bolsa Família, BPC), imposto sobre lucros - todos operam automaticamente, suavizando o ciclo.
  • C errada: Estabilizadores automáticos existem em qualquer regime cambial.
  • D errada: Justamente o oposto: SUAVIZAM os ciclos (são contracíclicos por definição).
  • E errada: No Brasil, absorvem entre 15% e 25% (estimativa IPEA). Em economias desenvolvidas, 20-40%. Nunca 60%.

Tese central: Estabilizadores automáticos = mecanismos contracíclicos sem decisão discricionária (IR progressivo, seguro-desemprego, transferências, imposto sobre lucros). Suavizam ciclos. Brasil: absorvem 15-25% dos choques. Economias desenvolvidas: 20-40%.

Q7

Questão 07 · Comentada

Enunciado. Sobre a Crítica de Lucas (1976), formulada por Robert Lucas em "Econometric Policy Evaluation: A Critique", é correto afirmar:

  1. A) Sustenta que política monetária é sempre eficaz para reduzir o desemprego, mesmo no longo prazo.
  2. B) Sustenta que parâmetros estimados em modelos macroeconômicos tradicionais não são estruturais e mudam quando o regime de política econômica muda; portanto, modelos econométricos baseados em dados passados podem dar previsões erradas para novas políticas. A crítica motivou o desenvolvimento dos modelos DSGE microfundamentados.
  3. C) Defende que política fiscal é mais eficaz que política monetária em qualquer regime.
  4. D) Critica os modelos de equilíbrio geral por serem complexos demais.
  5. E) Argumenta que regras devem ser preferidas à discrição em política monetária.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento da Crítica de Lucas. Tema central da macroeconomia moderna.

  • A errada: A Crítica de Lucas é metodológica, não sobre eficácia da política monetária per se.
  • B CORRETA: Definição precisa. Lucas (1976) argumentou que parâmetros em curvas de Phillips, funções de consumo, demandas por moeda refletem comportamento condicionado às políticas em vigor. Mudança de regime invalida previsões. Motivou DSGE.
  • C errada: Não é o tema da crítica. É sobre métodos de avaliação, não sobre comparação fiscal vs monetária.
  • D errada: Não é o tema da crítica. Lucas defendia microfundamentação, não simplificação.
  • E errada: Embora Lucas defendesse regras, a Crítica em si é sobre identificação de parâmetros, não sobre regras vs discrição.

Tese central: Crítica de Lucas (1976): parâmetros macroeconométricos não são estruturais; mudança de regime de política invalida previsões baseadas em dados passados. Motivou desenvolvimento de DSGE microfundamentados. Lucas Nobel 1995.

Q8

Questão 08 · Comentada

Enunciado. A desinflação Volcker, conduzida nos Estados Unidos pelo Federal Reserve sob a presidência de Paul Volcker entre 1979 e 1982, teve como característica:

  1. A) Política monetária acomodatícia, com Federal Funds Rate abaixo de 5% durante todo o período.
  2. B) Aperto monetário severo, com Federal Funds Rate atingindo 19,1% em junho de 1981, gerando recessão dupla (1980 e 1981-1982) com desemprego no pico de 10,8%; resultado: inflação caiu de cerca de 13% para 4% em 1982-1983.
  3. C) Combinação de controles de preços e congelamento de salários, sem aperto monetário.
  4. D) Estímulo fiscal massivo para combater a inflação.
  5. E) Foi um fracasso em reduzir a inflação americana.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento da desinflação Volcker. Marco histórico da política monetária moderna.

  • A errada: Justamente o oposto: política monetária extremamente restritiva. Federal Funds Rate atingiu 19% em 1981.
  • B CORRETA: Resumo preciso. Volcker promoveu aperto monetário severo. Recessão dupla (jan-jul/1980 e jul/1981-nov/1982, esta última 16 meses, mais longa do pós-guerra à época). Desemprego pico 10,8% (dez/1982). Inflação caiu de ~13% para ~4%.
  • C errada: Não houve controles de preços. Foi política monetária pura.
  • D errada: Não foi estímulo fiscal. Foi aperto monetário.
  • E errada: Foi sucesso reconhecido. Estabeleceu credibilidade do Fed e abriu período de inflação baixa nos EUA por 4 décadas.

Tese central: Volcker disinflation (1979-1982): aperto monetário severo (Fed Funds 11% para 19,1%), recessão dupla com desemprego 10,8%, inflação caiu de 13% para 4%. Marco do combate moderno à inflação. Estabeleceu credibilidade do Fed.

Q9

Questão 09 · Comentada

Enunciado. Sobre o Plano Real (1994), é correto afirmar:

  1. A) Foi desenvolvido sob o governo Sarney como plano puramente heterodoxo, baseado em congelamento de preços.
  2. B) Foi lançado em julho de 1994 sob o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso (governo Itamar Franco), combinando elementos heterodoxos (URV - Unidade Real de Valor, derivada da proposta de Arida e Resende) e ortodoxos (âncora cambial, austeridade fiscal); a inflação caiu de cerca de 50% ao mês para abaixo de 10% ao ano em 1996.
  3. C) Foi um fracasso e a inflação brasileira só foi controlada após 2002.
  4. D) Foi baseado em currency board (caja de conversão), similar ao Plano Cavallo da Argentina.
  5. E) Não envolveu mudança de moeda, apenas reajuste das tabelas de preços.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento do Plano Real. Marco histórico essencial para qualquer concurso brasileiro.

  • A errada: Plano Cruzado (Sarney, 1986) foi puramente heterodoxo e fracassou. Plano Real (1994) foi diferente.
  • B CORRETA: Resumo preciso. FHC ministro da Fazenda do governo Itamar Franco em 1993-94. URV (Arida-Resende 1984, Lopes 1986) + âncora cambial + austeridade. Inflação caiu de 50%/mês (jun/1994) para abaixo de 10% ao ano em 1996.
  • C errada: Foi sucesso reconhecido. Brasil saiu da hiperinflação a partir de jul/1994. Após 2002, foi consolidação do tripé moderno (cambio flutuante já desde jan/1999).
  • D errada: Brasil teve âncora cambial deslizante, NÃO currency board. Currency board é Argentina 1991-2001 (Plano Cavallo).
  • E errada: Houve mudança de moeda. URV era unidade de conta transitória; Real foi a nova moeda introduzida em 1° jul/1994.

Tese central: Plano Real (jul/1994): FHC ministro da Fazenda do governo Itamar. URV (Arida-Resende 1984, Lopes 1986) + Real + âncora cambial + austeridade fiscal. Inflação caiu de 50%/mês para <10% a.a. em 1996. Marco histórico, combinação heterodoxa-ortodoxa.

Q10

Questão 10 · Comentada

Enunciado. A recessão brasileira mais longa registrada pelo CODACE/FGV-IBRE (com 11 trimestres consecutivos de contração da atividade econômica) ocorreu entre:

  1. A) 1981 T1 e 1983 T1.
  2. B) 1989 T3 e 1992 T1.
  3. C) 1998 T1 e 1999 T1.
  4. D) 2014 T2 e 2016 T4.
  5. E) 2020 T1 e 2020 T2.

Gabarito: D

Prof. Affonsinho comenta

Conhecimento factual das recessões brasileiras CODACE. Cobrança específica.

  • A errada: Recessão 1981-83 teve 8 trimestres. Foi muito dura, mas não a mais longa.
  • B errada: Recessão 1989-92 (pós-Plano Collor) teve 10 trimestres. Foi muito longa, mas não a mais longa.
  • C errada: Recessão 1998-99 teve 5 trimestres.
  • D CORRETA: Recessão 2014 T2 - 2016 T4: 11 trimestres consecutivos. A mais longa da série datada pelo CODACE. PIB caiu cerca de 7% acumulado, inflação atingiu 10,7% em 2015, desemprego subiu de 6,5% (2014) para 13,7% (2017).
  • E errada: Recessão 2020 (pandemia) foi a mais CURTA: apenas 2 trimestres. Mas a magnitude foi enorme (PIB caiu 9,7% no T2/2020 anualizado).

Tese central: Recessão 2014-2016 (11 trimestres) é a MAIS LONGA datada pelo CODACE. PIB caiu 6,9% acumulado, inflação 10,7% em 2015, desemprego 13,7% em 2017. Combinação de reversão de commodities, desequilíbrio fiscal, expectativas desancoradas, crise política. Pandemia 2020 (2 trim) foi a mais curta mas intensa.

§ Referências

Artigos seminais, livros clássicos e literatura empírica utilizada nesta aula.

Anatomia e empíria dos ciclos

  • Burns, A. F.; Mitchell, W. C. Measuring Business Cycles. New York: NBER, 1946. Marco fundador.
  • Friedman, M.; Schwartz, A. J. A Monetary History of the United States, 1867-1960. Princeton: Princeton University Press, 1963. Empíria histórica seminal.
  • NBER Business Cycle Dating Committee - publicações periódicas. Datação oficial EUA.
  • CODACE / FGV-IBRE - notas e comunicados de datação. Datação oficial Brasil.

Teorias clássicas

  • Juglar, C. Des Crises Commerciales et de leur Retour Périodique en France, en Angleterre et aux États-Unis. Paris: Guillaumin, 1862.
  • Schumpeter, J. A. Business Cycles: A Theoretical, Historical and Statistical Analysis of the Capitalist Process. New York: McGraw-Hill, 1939, 2 vols.
  • Schumpeter, J. A. Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper, 1942. Destruição criativa.
  • Samuelson, P. A. "Interactions between the Multiplier Analysis and the Principle of Acceleration". Review of Economics and Statistics, vol. 21, n. 2, p. 75-78, 1939.
  • Hicks, J. R. A Contribution to the Theory of the Trade Cycle. Oxford: Oxford University Press, 1950. Tetos e pisos.
  • Goodwin, R. M. "The Nonlinear Accelerator and the Persistence of Business Cycles". Econometrica, vol. 19, n. 1, p. 1-17, 1951.
  • Friedman, M. A Theory of the Consumption Function. Princeton: Princeton University Press, 1957. Hipótese da renda permanente.

RBC e crítica de Lucas

  • Lucas, R. E. "Expectations and the Neutrality of Money". Journal of Economic Theory, vol. 4, n. 2, p. 103-124, 1972. Nobel 1995.
  • Lucas, R. E. "Econometric Policy Evaluation: A Critique". Carnegie-Rochester Conference Series on Public Policy, vol. 1, p. 19-46, 1976.
  • Kydland, F. E.; Prescott, E. C. "Rules Rather than Discretion: The Inconsistency of Optimal Plans". Journal of Political Economy, vol. 85, n. 3, p. 473-491, 1977. Inconsistência temporal.
  • Kydland, F. E.; Prescott, E. C. "Time to Build and Aggregate Fluctuations". Econometrica, vol. 50, n. 6, p. 1345-1370, 1982. RBC. Nobel 2004 ambos.

Novo-keynesianos e DSGE

  • Calvo, G. A. "Staggered Prices in a Utility-Maximizing Framework". Journal of Monetary Economics, vol. 12, n. 3, p. 383-398, 1983.
  • Mankiw, N. G. "Small Menu Costs and Large Business Cycles". Quarterly Journal of Economics, vol. 100, n. 2, p. 529-538, 1985.
  • Blanchard, O. J.; Kiyotaki, N. "Monopolistic Competition and the Effects of Aggregate Demand". American Economic Review, vol. 77, n. 4, p. 647-666, 1987.
  • Mankiw, N. G.; Romer, D. (eds.) New Keynesian Economics, 2 vols. Cambridge: MIT Press, 1991.
  • Galí, J. "Technology, Employment, and the Business Cycle: Do Technology Shocks Explain Aggregate Fluctuations?". American Economic Review, vol. 89, n. 1, p. 249-271, 1999.
  • Smets, F.; Wouters, R. "An Estimated Stochastic Dynamic General Equilibrium Model of the Euro Area". JEEA, vol. 1, n. 5, p. 1123-1175, 2003.
  • Christiano, L. J.; Eichenbaum, M.; Evans, C. L. "Nominal Rigidities and the Dynamic Effects of a Shock to Monetary Policy". JPE, vol. 113, n. 1, p. 1-45, 2005.
  • Galí, J. Monetary Policy, Inflation, and the Business Cycle. Princeton: Princeton University Press, 2008.

Política de estabilização e regras

  • Taylor, J. B. "Discretion versus Policy Rules in Practice". Carnegie-Rochester Conference Series, vol. 39, p. 195-214, 1993. Regra de Taylor.
  • Auerbach, A. J.; Gorodnichenko, Y. "Measuring the Output Responses to Fiscal Policy". American Economic Journal: Economic Policy, vol. 4, n. 2, p. 1-27, 2012. Multiplicador assimétrico.

Inflação inercial brasileira e Plano Real

  • Bresser-Pereira, L. C.; Nakano, Y. "Fatores Aceleradores, Mantenedores e Sancionadores da Inflação". Revista de Economia Política, vol. 4, n. 1, 1985.
  • Lopes, F. O Choque Heterodoxo: combate à inflação e reforma monetária. Rio de Janeiro: Campus, 1986.
  • Arida, P.; Resende, A. L. "Inertial Inflation and Monetary Reform: Brazil". Texto interno PUC-Rio, 1984.
  • Bacha, E. L. O Plano Real: estabilização monetária e financeira. Rio de Janeiro: BNDES, 1995.

Manuais e fontes oficiais

  • Mankiw, N. G. Macroeconomia. 10a ed. Rio de Janeiro: LTC, 2024.
  • Blanchard, O. Macroeconomia. 8a ed. São Paulo: Pearson, 2024.
  • Romer, D. Advanced Macroeconomics. 5th ed. New York: McGraw-Hill, 2019.
  • BACEN: Atas COPOM, Relatório Trimestral de Inflação, modelo SAMBA.

Dica do Fuffu

Pra concursos do BACEN: dominar Lucas, Kydland-Prescott, Calvo, Mankiw, Smets-Wouters é obrigatório. Pra AFRFB e TCU, conhecer regra de Taylor (1993) e estabilizadores automáticos é essencial. Pra qualquer concurso brasileiro, o Plano Real (1994) e a datação CODACE são diferenciais. A próxima e última aula da série Macroeconomia será sobre Desenvolvimento Econômico.

Fim da aula 13

Você dominou Ciclos Econômicos.
Fatos estilizados de Burns-Mitchell (1946),
teorias clássicas (Juglar, Kondratieff, Schumpeter),
Ciclos Reais de Negócios (RBC) com Lucas (Nobel 1995)
e Kydland-Prescott (Nobel 2004),
novo-keynesianos (Mankiw, Calvo) e DSGE moderno,
regra de Taylor (1993) e estabilizadores automáticos,
Crítica de Lucas (1976) e desinflação Volcker (1979-82),
Plano Real (1994) e os 10 ciclos brasileiros do CODACE.
Pronto para a última aula: Desenvolvimento Econômico.

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Aula 13 de 14 · Macroeconomia
Próxima: Desenvolvimento Econômico (indicadores, desigualdade, pobreza).

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