Em seu ensaio, o argentino Domingo Faustino Sarmiento, no afã de entender a Argentina, construiu uma interpretação carregada de ideias, imagens e símbolos, compartilhados, na mesma época, por contemporâneos brasileiros, ocupados com idêntica tarefa de compreender o próprio país. Facundo ultrapassou os limites da Argentina para se estender pelo território latino-americano, animando controvérsias e contribuindo para a cristalização de certos estereótipos sobre o continente. (Maria Ligia Coelho Prado. América Latina no século XIX – Tramas, telas e textos) Em sua obra clássica Facundo, Sarmiento apresenta seu pensamento sobre
- A)o processo de modernização econômica latino-americano, dependente da economia britânica.
Errada, porque Facundo nao discute o processo de modernizacao economica dependente da Inglaterra como tema principal, embora a modernizacao apareca de modo indireto.
- B)a proximidade entre os povos nativos da América e os europeus na formação social latino-americana.
Errada, porque Sarmiento nao valoriza a proximidade entre povos nativos e europeus; ao contrario, ele hierarquiza e contrapoe modelos de sociedade.
- C)a escravização de negros de origem africana e as suas contribuições para a cultura latino-americana.
Errada, porque a escravizacao africana nao e o eixo central de Facundo, que se concentra na organizacao politica e social da Argentina.
- D)as independências da América Latina, marcadas pela violência colonial e pela luta revolucionária.
Errada, porque a obra nao trata diretamente das independencias latino-americanas, mas da interpretacao da Argentina pos-independencia.
- E)a oposição entre o campo, lugar da barbárie, e a cidade, lugar do progresso e da civilização.
Certa, porque Sarmiento formula a oposicao entre o campo, associado a barbarie, e a cidade, associada ao progresso e a civilizacao.
Gabarito: E
Domingo Faustino Sarmiento, em Facundo, escreveu uma das obras mais influentes do pensamento político latino-americano do século XIX. O livro nao trata, principalmente, de economia, escravidao ou independencia, mas da forma como a Argentina deveria ser entendida e reorganizada. Para Sarmiento, havia uma tensao central entre dois mundos: o campo, ligado ao atraso, ao caudilhismo e a violencia, e a cidade, associada a educacao, ordem, progresso e civilizacao. Essa oposicao ficou famosa na formula "civilizacao e barbarie". O campo e a figura do gaucho, simbolizados por Facundo Quiroga, representavam para ele a forca da barbarie, isto e, a persistencia de estruturas sociais consideradas atrasadas. Ja a cidade, especialmente Buenos Aires, aparecia como o espaco do progresso, da instrucao e da integracao ao mundo moderno. E por isso que a alternativa E esta correta: ela resume exatamente o nucleo da obra. Esse tipo de leitura marcou muito o seculo XIX latino-americano, porque varios intelectuais tentavam explicar seus paises apos as independencias. Sarmiento fez isso com um olhar bem critico, quase como se dissesse: "se quisermos virar um pais moderno, precisamos vencer o atraso do interior". A grande pegadinha e que a obra parece falar de temas mais amplos da America Latina, mas o eixo real do texto e essa oposicao simbolica entre campo e cidade. Em termos historicos, Facundo e um texto de interpretacao politica e social, nao um relato de fatos isolados. Ele influenciou debates posteriores sobre centralizacao, modernizacao, imigração e construcao do Estado nacional. Ou seja, se voce lembrar da dupla campo-barbarie versus cidade-civilizacao, ja esta com metade da questao resolvida.