Leia o texto a seguir: Pretendi esboçar as fronteiras e as etapas históricas que constituíram um espaço transcontinental, luso- -brasileiro e luso-africano que se assemelha a um atol do Pacífico. Na maior parte do tempo, a cadeia de montanhas unindo as ilhas fica submersa, invisível. Só quando um terremoto faz tremer o fundo do mar e se levantam tempestades é que o grande anel do atol surge no horizonte. Há, de fato, dois terremotos que expõem o arco transcontinental da zona econômica formada pelo Brasil e por Angola. (Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Adaptado) Um dos terremotos a que o autor se refere esteve associado à
- A)modernização capitalista relacionada à economia do café no século XIX, que fez o Brasil prescindir da escravização negra.
Errada, porque a economia do café não eliminou a escravidão negra no século XIX, ao contrário, em muitos momentos ela a reforçou.
- B)expansão napoleônica, que levou a uma profunda reconfiguração das relações comerciais entre o Brasil e a África.
Errada, porque a expansão napoleônica afetou a Corte portuguesa e o comércio colonial, mas não corresponde ao bloqueio específico da ligação Brasil-África mencionado no texto.
- C)ação dos navios de guerra britânicos que se interpuseram entre o Império do Brasil e os portos negreiros africanos.
Certa, porque os navios britânicos combateram o tráfico negreiro e interferiram diretamente na rota atlântica entre o Brasil e os portos africanos.
- D)independência do Haiti, primeiro país a abolir a escravidão, o que transformou o tráfico negreiro para a América.
Errada, porque a independência do Haiti impactou o medo das elites escravistas, mas não foi o fator central da interrupção dessa ligação comercial Brasil-África.
- E)Conjuração Baiana, revolta que colocou a escravidão em questão e quase levou à interrupção do tráfico negreiro.
Errada, porque a Conjuração Baiana expressou ideias antiescravistas, mas não foi ela que interrompeu o tráfico negreiro para o Brasil.
Gabarito: C
O texto do Alencastro trata do Atlântico Sul como um espaço histórico integrado, especialmente pela ligação entre Brasil e Angola por meio do tráfico negreiro. Essa conexão foi forte durante a Colônia e o Primeiro Reinado, quando o Brasil dependia intensamente da mão de obra escravizada africana. Ou seja, não era uma relação diplomática bonitinha de mapa: era comércio atlântico, lucro e escravização em escala enorme. O "terremoto" mencionado no enunciado é um momento de ruptura que faz essa engrenagem aparecer com força. No caso da alternativa correta, isso remete à atuação britânica contra o tráfico de escravos, sobretudo com a pressão naval e a interceptação de navios negreiros. A Inglaterra, já consolidada como potência industrial e abolicionista no discurso e na política externa, passou a bloquear a rota entre o Império do Brasil e os portos africanos. Isso ficou mais duro com medidas como a Lei Aberdeen (1845), que autorizou a marinha britânica a apreender navios negreiros, inclusive ligados ao Brasil. Na prática, os navios de guerra britânicos se colocaram entre o Brasil e a África, atrapalhando e reduzindo o tráfico atlântico. Foi um golpe direto nessa zona econômica luso-brasileira e luso-africana descrita no texto. Por isso o gabarito é a letra C: ela expressa exatamente a interferência inglesa na rota negreira, que abalou o eixo Brasil-Angola. Não é sobre café, nem sobre Haiti, nem sobre revoltas internas isoladas: aqui o foco é a pressão marítima britânica sobre o tráfico atlântico.