Leia o trecho a seguir. Os envolvidos também desempenhavam diferentes formas de trabalho simbólico ao cocriar a crença coletiva de que todos os vassalos tinham acesso ao ouvido do governante. A ficção do diálogo entre governados e governante era um pilar da confiança dos vassalos na monarquia. Foi desse diálogo epistolar e da construção de confiança que surgiu a comunicação em todo o mundo. De fato, esse intercâmbio não apenas deu origem a muitas de suas leis, mas também moldou profundamente a sociedade nas Índias e constituiu, em si, um elemento fundamental de um projeto coletivo. Sob essa perspectiva, os Estados e sua formação não são simplesmente produtos de aparatos coercitivos que se impõem sobre comunidades passivas, mas o resultado de processos comunicativos que tornaram ambas as partes mais poderosas. Adaptado de: MASTERS, Adrian. We, the King: Creating Royal Legislation in the Sixteenth-Century Spanish New World. Cambrigde: Cambridge University Press, 2023, pp. 7-8. Com base na leitura do trecho, assinale a opção que apresenta corretamente a interpretação do autor sobre o projeto da monarquia hispânica sobre seus domínios na época moderna.
- A)A inacessibilidade do rei reforçava sua imagem como uma figura fortalecida, construída por meio de mecanismos de controle e opressão.
Errada, porque o trecho rejeita a ideia de que a monarquia se sustentava apenas na inacessibilidade e na opressão.
- B)A interação dos vassalos com o rei, por meio da possibilidade de comunicação, contribuía para reafirmar a legitimidade de sua autoridade como soberano.
Certa, porque a possibilidade de comunicação com o rei ajudava a construir confiança e a legitimar sua autoridade.
- C)O potencial contato com o monarca gerava entre os vassalos uma sensação de confiança em relação ao rei, contudo as comunicações não produziam resultados efetivos.
Errada, porque o texto afirma justamente que o intercâmbio comunicativo produzia efeitos reais na sociedade e na formação do Estado.
- D)A interação comunicativa dos vassalos com o rei era considerada uma expressão de que a maior autoridade do exercício de poder da monarquia eram seus súditos.
Errada, porque o autor não afirma que os súditos eram a maior autoridade, mas que o diálogo ajudava a fortalecer a monarquia.
- E)A comunicação entre o monarca e seus funcionários reais foi o elemento central para a estruturação da monarquia, composta exclusivamente por aqueles responsáveis pela formulação das leis.
Errada, porque o trecho trata da relação entre governante e vassalos no conjunto do império, não apenas dos funcionários reais nem de uma monarquia composta exclusivamente por legisladores.
Gabarito: B
O trecho defende uma leitura bem importante da monarquia hispânica na época moderna: o poder não funcionava só na base da força e da imposição, mas também pela comunicação, pelo pedido, pela resposta e pela criação de confiança entre rei e vassalos. Em vez de imaginar um monarca distante e mudo, o autor mostra que havia uma ficção política do diálogo: os súditos podiam escrever, pedir, negociar e, assim, reconhecer a autoridade régia ao mesmo tempo em que também eram reconhecidos por ela. Isso ajuda a entender por que a monarquia ganhava legitimidade. Quando o vassalo acreditava que podia ser ouvido, ele tendia a aceitar mais facilmente a autoridade do soberano. Não é que todo mundo mandava no rei, claro, mas a ideia de acesso ao governante fortalecia a própria monarquia e tornava seu domínio mais estável. Por isso a alternativa B está correta: a possibilidade de interação dos vassalos com o rei, por meio da comunicação, contribuía para reafirmar a legitimidade da autoridade soberana. O trecho cita exatamente essa lógica de construção de confiança e de diálogo epistolar como parte do funcionamento do poder imperial espanhol. As demais alternativas escorregam ao reduzir tudo à opressão pura, ao negar efeitos concretos da comunicação ou ao inverter a hierarquia política. O autor não está dizendo que os súditos mandavam, nem que a conversa era vazia: ele está mostrando que o império também se fazia com papel, petição e negociação.